PERSPECTIVA EDUCACIONAL EM ZYGMUNT BAUMAN: A “trans-formação” do eu no “Capitalismo Parasitário”

PERSPECTIVE ON EDUCATIONAL ZYGMUNT BAUMAN: The formation of the self in "Parasite Capitalism"


José Mateus Bido

                   RESUMO

A sociedade contemporânea, objeto de investigação do pensador Zygmunt Bauman, revela-se, em sua análise, como um cenário de intensas e profundas transformações. Os contextos histórico-social e político-econômico impelem o indivíduo a assumir um papel pessoal, no coletivo, que o isola como sujeito, forçando-o a romper os laços com o ser do outro, por meio da uma busca contínua pela satisfação desenfreada de necessidades externamente criadas. Os laços humanos são enfraquecidos e subjetivados à condição de ser sem o auto-sacrifício. A identidade de ser, como consumidor, prolifera-se também pelo “caráter formativo” que o mercado estampa nas individualidades. Neste contexto, tudo se superficializa, inclusive a relação entre os humanos, que assume a característica da frieza e do interesse. As relações são mantidas pelo interesse. O significado das coisas define-se pelo interesse. Assim, o outro é o que o indivíduo pode dele consumir. Por outro lado, as organizações sobrevivem à medida que garantem a satisfação dos seus clientes. Por isso, a condição do eu Pós- Moderno vive mediante a tensão da relação com a subjetividade do outro e da reconstrução do seu significado no mundo. Este significado se distancia, cada vez mais, da concepção ontológica e se aproxima mais da perspectiva mercadológica. Trata-se de uma situação que exige uma lucidez do processo formativo e uma crítica reflexiva sobre os horizontes da formação do eu na Pós-modernidade.

Palavras-chave: Bauman, educação, crítica social.

ABSTRACT

Contemporary society, thinker Zygmunt Bauman research object, it turns out, in his analysis, as an intense scenario and profound changes. The socio-historical, political and economic contexts impel the individual to take a personal role in the collective, which isolates him as a subject, forcing him to break ties with the being of the other, through a continuous quest for unbridled satisfaction needs externally created. Human ties are weakened and subjectified the condition of being without self-sacrifice. The identity of being, as a consumer, proliferates also the "formative" the market pattern in individuals. In this context, everything superficializa, including the relationship between humans, who takes on the characteristic of coolness and interest. Relationships are maintained by interest. The meaning of things is defined by the interest. Thus, the other is what the individual can consume it. On the other hand, organizations survive as ensure customer satisfaction. Therefore, the condition of the Post-Modern I live by the tension of the relationship with the subjectivity of the other and rebuilding their meaning in the world. This meaning is distance, increasingly, the ontological conception and is closer to marketing perspective. It is a situation that requires lucidity of the training process and a reflective critique on the horizons of the formation of the self in Postmodernism.

Keywords: Bauman , education, social criticism
 
1        INTRODUÇÃO
Diante das variadas e distintas perspectivas formativas que orientam as teorias pedagógicas[2] contemporâneas, merece ser destacada a leitura de Zygmunt Bauman sobre a dinâmica social Pós-Moderna, que fundamenta as tendências contemporâneas. Evidentemente ele não elabora uma teoria pedagógica específica. Sua postura, como sociólogo, é descrever a sociedade contemporânea, objeto de sua análise, apresentando distintos fenômenos sociais que a caracterizam. Neste aspecto, mesmo não elaborando uma teoria pedagógica, sua reflexão contribui para a compreensão de como as teorias pedagógicas se manifestam ou se adaptam na sociedade Pós-Moderna. Educar com quê finalidade? Talvez seja esta uma pergunta a ser feita aos escritos de Bauman sobre a educação. Contudo, a possibilidade de entendimento para uma resposta possível a este problema nasce da maneira como ele compreende o ser humano na sociedade “líquida”, bem como a sua condição de ser e se fazer neste contexto.
Tomando a compreensão de Bauman sobre Pós-Modernidade como “Modernidade Líquida” (BAUMAN, 2001), o tema educação aparece, portanto, não a partir de uma teoria pedagógica própria, mas como um problema sociológico a ser investigado. A partir da sua leitura sociológica sobre a educação enquanto fenômeno, compreende-se como ela é dialogada com a tendência ou modelo socioeconômico contemporâneo, especificamente a delimitada como sociedade de consumo.
Nesse sentido, pela identificação e entendimento das características específicas do ser humano e da sociedade, descritas nos escritos do referido autor, é possível situá-lo no horizonte da reflexão da formação pedagógica contemporânea. É no entendimento sobre como a sociedade contemporânea se organiza e como o ser humano se manifesta, que se torna possível inferir uma leitura educacional, pela perspectiva sociológica de Bauman.
Para cumprir este propósito, o presente artigo visa apresentar as ideias do sociólogo polonês para uma reflexão sobre a educação do humano. Para tanto, procura inserir a reflexão sobre a educação a partir do sistema econômico contemporâneo ao pensador, referindo-se a ele como “Capitalismo Parasitário”, para evidenciar as diferentes formas de controle que este mantém sobre o processo educativo. Em seguida, apresentam-se os efeitos da dinâmica educacional contemporânea sobre o ser humano, buscando ressaltar a identidade de ser que se pretende formar.
Este artigo visa, portanto, mediante as principais obras de Bauman, referenciar a tendência que a educação assume em face da dinâmica das relações de consumo.

2        O CENÁRIO REFLETIDO POR BAUMAN
            É lúcida e precisa a leitura de Zygmunt Bauman sobre a sociedade ocidental do início do século XXI. A lucidez se apresenta com ênfase no foco sobre o qual ele constrói o seu argumento sociológico: a sociedade pós-moderna[3]. A precisão qualitativa de sua análise reside na investigação social, identificada no fenômeno das relações antropológicas, as quais são construídas com base nas manifestações humanas, típicas dos sujeitos históricos que convivem com as influências tecnológicas e com o espírito midiático do presente século. Sujeitos que convivem e que ajudam a construir as condições ideais para fundamentar o fenômeno das “relações líquidas”, que ajudam a formar culturalmente “seres líquidos”.
            A obra de Bauman pode provocar, a princípio, um equívoco interpretativo quando, desavisadamente, lê-se suas produções sem a crítica filosófica que as fundamenta. O mais comum é atribuir ao pensador um caráter pessimista sobre os horizontes do contemporâneo. A concepção de uma crítica que orienta a análise de Bauman sobre o processo de construção da sociedade contemporânea nasce da perspectiva de que o ser humano é o responsável pela construção do seu presente e do futuro (BAUMAN, 2011).
Isso significa dizer que o ser humano, envolvido por diferentes fatores socioeconômicos e político-culturais, reposiciona-se em pensamento e atitudes diferentemente das gerações anteriores.  A análise do pensador se desenvolve a partir da crítica à sociedade capitalista do século XX e das décadas iniciais do século XXI, período que lhe é contemporâneo. Esta conjuntura social é definida por outros pensadores[4] como sociedade pós-moderna, mas assume em Bauman a identificação de “Sociedade Líquida”.
Esse fenômeno social da contemporaneidade é estudado pelo autor a partir da referência que se estabelece entre o ser humano e a sua condição de ser no mundo: um ser histórico e social. Envolvido por um sistema de relações, medido pelo efeito produtivo e de consumo, a condição de ser está sempre ligada à sua identidade social. Em outras palavras, o sistema político-econômico, que exerce a primazia no Ocidente, historicamente definido como capitalismo, é o norteador dessa perspectiva de ser. A condição imposta por este sistema é fundamentalmente estimuladora do consumo, assumindo uma característica “parasitária” e reafirmando continuamente a sua supremacia sobre o humano e às organizações por ele instituídas.
O sistema impõe sobre o humano, bem como as suas organizações, uma constante necessidade de adaptação. Na ótica de Bauman (2010), este processo adaptativo, seja do indivíduo ou da coletividade, bem como das organizações, precisa ser compreendido como uma constante investida de um sistema que se faz e se refaz pela circunstancialidade. Nesse aspecto, a flexibilidade e a adaptabilidade são características de uma identidade social fluida e assumem o papel de orientadoras de um processo formativo do sujeito (BAUMAN, 2013). Não há mais espaço para o permanente, para o duradouro, ou para o significado metafísico de ser.
Neste sentido, como compreender o processo educativo em um conjunto sistêmico que prima pelo consumo? Como compreender a construção de Bauman diante de teorias pedagógicas contemporâneas? Estas duas questões orientarão os argumentos neste artigo.
                        
3 A PERSPECTIVA EDUCACIONAL NO CAPITALISMO PARASITÁRIO

Pensar uma perspectiva educacional que referencie a formação do sujeito para a sua emancipação e autonomia, implica, necessariamente, compreender do quê (ou de quem) ele pretende se tornar livre e independente. É preciso entender quais forças externas aos homens contemporâneos tiram-lhes a capacidade de serem ou de se tornarem livres ou independentes. Este foco é relevante para referenciar a maneira como o processo educacional se manifesta no capitalismo parasitário. É fato que a formação do ser humano, compreendida a partir do modelo iluminista, sofre dura crise. Na visão de Bauman,

[...] A história da educação conheceu muitos momentos críticos nos quais ficava evidente que premissas e estratégias já testadas e aparentemente confiáveis não davam mais conta da realidade e exigiam revisões e reformas. Contudo, a crise atual parece ser diferente daquelas do passado. Os desafios do presente desferem duros golpes contra a própria essência da ideia de educação, tal como ela se formou nos primórdios da longa história da civilização: eles questionam as invariantes dessa ideia, as características constitutivas da educação que resistiram a todos os desafios passados e emergiram intactas de todas as crises anteriores; os pressupostos que antes nunca haviam sido colocados em questão e menos ainda encarados como se já tivessem cumprido sua missão e necessitassem de substituição (BAUMAN, 2010, p. 40).

            O pensador considera que o modelo civilizatório ocidental vive, na contemporaneidade, o reverso de seu propósito. Ao longo dos séculos, a formação do humano sempre construiu uma passagem da realidade exterior (natureza) para o mundo interno (intelecto) da pessoa. Essa dinâmica permitia ao ser humano estabelecer conceitos sobre os objetos e construir signos que os nominavam, de acordo com suas características substanciais ou acidentais. Tal postura cognitiva permitiu às ciências modernas criarem diferentes meios para se apropriarem dos objetos e, sobre eles, exercerem a ação investigativa que desse ao ser humano a segurança para suas ações no mundo.
            Contudo, esta condição de “formação” do humano passa a ser revista para a “transformação” do ser humano. Evidentemente que o pensar e o agir do indivíduo na contemporaneidade são essencialmente diferentes do pensar e o agir das gerações anteriores. Esta “transformação” do ser humano na contemporaneidade é que se procura compreender.

3.1 A educação na tensão ontológica

As relações entre os seres humanos e a definição sobre os critérios da vida na contemporaneidade são regidos, predominantemente, pela efemeridade, pelo útil e pelo consumível. O que está oculto nesse processo é o significado da condição humana, que vai perdendo a sua referência para que o anseio pelo produto seja atingido, em detrimento do seu produtor. A energia desprendida pelo ser humano na busca por um referencial de ser, no horizonte externo (social) – realidade identificada por meio de produtos, ideias etc. –, enfraquece consideravelmente o seu referencial interno (identidade).
Cria-se uma tensão ontológica.  Uma tensão no sentido e na condição de ser. Esta tensão ontológica, entre a condição de ser do humano, em si, e sua identidade de ser no mundo é que determina e caracteriza a perspectiva antropológica na contemporaneidade. Como ser no mundo e para o mundo, portanto, como ser histórico, o humano se coloca diante da difícil tarefa de refazer-se em seu sentido e em seu significado, não apenas pela sua lucidez intelectual, mas principalmente pela pressão que sofre do meio. O anseio pela construção do seu ser se confunde pelo desejo de manter a sua condição social.
            O desejo[5] (BAUMAN, 1999, p. 96) de possuir, de acumular e o de substituir – desejos estimulados pelo espírito do consumo –, enfraquece a identidade de ser do humano. Bauman define o momento contemporâneo como sendo medido pelo “gozo descartável”:
O consumismo de hoje não consiste em acumular objetos, mas em seu gozo descartável. Sendo assim, por que o ‘pacote de conhecimentos’ adquiridos na universidade deveria escapar dessa regra universal? No turbilhão de mudanças, é muito mais atraente o conhecimento criado para usar e jogar fora, o conhecimento pronto para utilização e eliminação instantâneas, o tipo de conhecimento prometido pelos programas de computador que entram e saem das prateleiras das lojas num ritmo cada vez mais acelerado (BAUMAN, 2010, p. 42).

O consumo, ou a dinâmica do consumo, sempre exige do indivíduo o ato de desprender-se. De sair de si e buscar algo externo a si. Desprender-se é romper com algo, ou desligar-se de algo. Esta passagem – do sair de si mesmo, do distanciar-se da condição de ser – determina o enfraquecimento da identidade individual, mediante a fusão com outra realidade, a saber: a do ser consumido.  Ser consumidor e ser consumido se fundem numa dinâmica e num vínculo de reciprocidade. Nasce, assim, a característica determinante do processo: consumir é o enfraquecimento do eu para o fortalecimento do sistema.
            A constituição da lógica que compreende o conjunto sistêmico da sociedade do consumo é construída e reconstruída continuamente pela relação de dependência estabelecida entre sujeito e objeto. Inúmeras forças são postas a serviço deste propósito. O rigor com que esta dinâmica se aplica sobre as opções diárias determina também o horizonte da formação ou educação do gosto. Educação para o desejo.
O gosto é elevado à primazia das opções. Escolher é fruto de um ser determinado a renunciar algo, em favor de algo, de maior significado. Escolher, na dinâmica da sociedade do consumo, implica mais do que superficializar ou efemerizar objeto; implica superar vínculos. Superar vínculos com objetos, substituindo-os por outros de maior significado ou importância. Nesse processo de mercantilização das escolhas, o humano também passa a substituir laços ou superar vínculos permanentes com o próprio humano. Para Bauman,

[...] No mundo líquido-moderno, a solidez das coisas, assim como a solidez dos vínculos humanos, é vista como uma ameaça: qualquer juramento de fidelidade, qualquer compromisso a longo prazo (e mais ainda por prazo indeterminado) prenuncia um futuro prenhe de obrigações que limitam a liberdade de movimento e a capacidade de perceber novas oportunidades (ainda desconhecidas) assim que (inevitavelmente) elas se apresentarem (BAUMAN, 2010, p. 40-41).

Neste sentido, escolher, pautado pela lógica do consumo, é sempre fruto da determinação do objeto sobre o sujeito. O sujeito é atraído pelos atributos implícitos no objeto. Nessa dinâmica do consumir, ter e possuir, o ser humano se deixa “confundir” [6] com o objeto da escolha e passa a ser determinado pela sedução do gosto, presente no objeto da escolha, ou pelo impacto no seu reconhecimento social. A subjetividade vai sendo determinada pelas escolhas dos sujeitos. Contudo, se as escolhas são pautadas pelo efêmero, transitório também será a sua condição de ser. Nasce, assim, um sujeito que se refaz. O eu é dado pelas escolhas, na proporção do seu significado. Um sujeito que escolhe pelo superficial, superficializa-se na sua condição de ser.
As condições que definem este sistema, como estimuladoras do consumo, exigem que as diferentes estruturas sociais sejam postas a favor desta lógica, inclusive as instituições responsáveis pela formação das novas gerações. Assim, o processo educativo, envolvido por esta conjuntura, tende a se dirigir para formar uma subjetividade aberta ao novo, a fim de responder ao sentido que se exige, circunstancialmente, do ser.

3.2  A subjetividade e o impasse na relação com o outro

O projeto europeu, de constituir um processo emancipatório do sujeito, serviu para por em questão, num primeiro momento, a noção de liberdade e ação própria. Estar livre da tutela de uma razão estruturada pela metafísica medieval. Este é o referencial de uma razão iluminada – livre da zona escura da razão medieval. Para se manifestar sem os resquícios de uma lógica medieval, os intelectuais modernos decidiram, buscando nas origens da filosofia, a inspiração para a reconstrução argumentativa sobre o contexto. Nesse momento, tem início a primeira fase da autonomia moderna, por meio da fundamentação sobre a emancipação humana, face às questões religiosas, ou, mais especificamente, da tutela de uma vertente que se fundamenta a partir do dado revelado. Emancipar-se tem como significado, ao ser humano no contexto moderno, assumir a sua condição de construir o seu referencial no mundo, por força de sua capacidade de pensar e de agir.
Considerando a potencialidade do ser humano como um ser livre, a sociedade ocidental moderna esforçou-se por fundamentar a estruturação de diferentes organizações estatais. Significa dizer que a racionalidade moderna, ao propor a libertação do homem de um Estado dominado pela referência divina, representação maior do poder na época, estrutura uma organização política na qual o próprio Estado se endurece, em nome dessa mesma libertação humana. Na sua maioria, os Estados europeus, organizados no movimento gestacional da modernidade, passam a tutelar a condição do ser humano em sociedade, a partir da lei ou da vontade de um soberano.
Mais uma vez a racionalidade ocidental se via envolvida na luta pela emancipação. Agora, não mais de uma força divina, mas evidentemente humana, personificada na vontade do Estado. Emancipar-se, agora, tem como significado ao ser humano superar o contexto sócio-político regido pela força, que, em nome da segurança, restringe sua ação no mundo. A emancipação se dá pela busca de uma nova organização social, que seja realmente democrática. Este movimento dialético se evidencia na postura contemporânea em que a emancipação da tutela do consumo se impõe como referência.
Esta tensão entre as forças heterônomas e a busca por emancipar-se requer um modelo de sujeito que se fundamenta numa racionalidade eminentemente subjetiva. A subjetividade com que a análise se processa faz surgir evidências de uma razão crítica de si mesma. Uma razão que coloca em questão os valores formulados por ela mesma. Ao questionar estes valores, a racionalidade ocidental questiona o próprio ser humano, apresentando-o como um ser de razão em movimento – transformação. Percebe-se como parte de um mundo em mudança. Constrói-se um entendimento cultural que legitima e fundamenta a mudança, não somente das circunstâncias, mas também da condição de ser.
O anseio pela pertença ao mundo em mudança, ou a necessidade pelo reconhecimento do eu individual pelo eu do outro, reposiciona o foco investigativo sobre a dinâmica da racionalidade contemporânea. O advento das distintas investigações científicas, somado ao desenvolvimento da tecnologia – elementos sobre os quais o humano visa produzir e organizar as suas relações sociais e culturais –, provocam a tensão da identidade subjetiva (BAUMAN, 2008b, p. 94). Quais valores seguir? Que condição ou condições sustentam o ser humano no mundo?
O movimento que constrói o sujeito contemporâneo e a sua condição de pertencer a um grupo social e por ele ser reconhecido, bem como a configuração de uma individualidade fechada em seus princípios (BAUMAN, 2013, p.31), mas aberta à novidade que dinamiza a sociedade pós-moderna, exige um novo formato de educar. Trata-se de educar para a mudança. Trata-se de fortalecer o flexível e o adaptável, seja no aspecto intelectual, seja nas suas ações no meio. Na visão de Bauman,

[...] Os humanos pós-modernos devem, portanto, ter a capacidade de, mais do que desenvolver uma lógica escondida na pilha de eventos ou padrões ocultos em coleções aleatórias de manchas coloridas, desfazer seus padrões mentais depressa e resgatar as telas ardilosas em um brusco movimento da mente [...] (BAUMAN, 2008a, p. 161).

            Exige-se, por isso, uma condição pedagógica de transformação do eu. Transformação do eu, no modelo educacional pós-moderno, é um dado de grande relevância para o entendimento do sujeito que se constitui a partir da desconstrução constante de si mesmo. A quebra dos padrões, a relevância dada ao mediato, ao efêmero e à suplantação dos limites do prazer são elementos que garantem a fusão entre sujeito e objeto. Aqui, a relação não é de estabelecer apenas a nova dimensão epistêmica, mas a condição de apropriação do sujeito sobre o objeto, a partir da sua noção de gosto ou prazer. É uma sedução implícita no objeto que define a relação com o sujeito.     O desejo pelo prazer provoca uma antecipação constante das opções. O movimento do ser se dá a partir do consumir. Consomem-se produtos, ideias, imagens etc., ao mesmo tempo em que se é consumido por eles.
A condição imposta pelo desejo do consumo nasce da constante investida ou pressão do mercado sobre o ser humano. Isto significa dizer que o seu contexto histórico-social e político-econômico forçam-no a assumir um papel pessoal, no coletivo, que o isola como sujeito, rompendo os laços com o ser do outro, por meio da busca pela satisfação desenfreada de suas necessidades criadas pela estratégia do consumo. A superação dos desafios é mensurada pela capacidade de consumo. Consumo de tudo aquilo que exprime a falta, que projeta o indivíduo ao âmbito do que consome. Os laços humanos se enfraquecem, subjetivando a condição de ser sem o auto sacrifício.
A identidade de ser consumidor se prolifera pelo “caráter formativo” que o mercado estampa nas individualidades. Neste contexto, tudo se superficializa, inclusive a relação entre os humanos, que agora assume a característica do interesse. As relações são mantidas pelo interesse. Assim, o outro é o que o indivíduo pode dele consumir. As organizações sobrevivem à medida que garantam a satisfação dos seus clientes.
Sendo assim, a condição do eu Pós- Moderno vive a partir da tensão da relação com a subjetividade do outro, num processo de nulidade recíproca, conduzindo ao fato do ser nada significar para o outro, marcada fundamentalmente pela reconstrução do seu significado no mundo (BAUMAN, 1997, p. 123ss). Contudo, a busca por este significar-se no mundo se distancia da concepção ontológica e se aproxima cada vez mais da perspectiva mercadológica.

4 EDUCAÇÃO PARA TRANSFORMAR O SER EM “LEVE E LÍQUIDO”

            A leitura de Bauman sobre a educação, como um fenômeno social, feita a partir das manifestações da “modernidade líquida”, apresenta elementos-chave para a compreensão da tendência pedagógica formativa contemporânea, de aproximar educação com a dinâmica do mercado. Isto significa dizer que há uma tendência muito crescente em aproximar a perspectiva formativa com a dinâmica das relações sociais e produtivas.

 [...] Ao contrário da era da construção das nações, a cultura líquido-moderna não tem ‘pessoas’ a cultivar, mas clientes a seduzir. E, diversamente da cultura sólido-moderna anterior, não visa mais ao término do trabalho (o quanto antes, melhor). Seu trabalho consiste antes em tornar a própria sobrevivência permanente, ‘temporalizando’ todos os aspectos da vida de seus antigos pupilos, agora renascidos como clientes [...] (BAUMAN, 2010, p. 36-37).

Esta lógica influencia diretamente o processo educacional, priorizando por resultados. A tendência predominante é a “agradabilidade” e a leveza do processo formativo. Espaço agradável, amizades agradáveis, escola agradável, professores agradáveis. Currículo leve e aulas leves. No espaço dado à agradabilidade e à leveza desponta a educação para o gosto. Educação para um conhecimento pontual, que vai atingir o problema na superfície. Este modelo de educação se baseia em resposta rápida, com foco nos resultados esperados pelo meio ou para dar aos indivíduos a satisfação de seus anseios circunstanciais. Trata-se de um modelo de formação educacional que prioriza a informação e os meios de atingi-los. Para Bauman,

[...] O futuro não é mais um tempo a ser esperado com impaciência: ele só vai aumentar as dificuldades atuais, incrementando de modo exponencial a quantidade de conhecimento que já nos atordoa, nos sufoca e que bloqueia a salvação que ele próprio oferece de forma sedutora. A massa de conhecimento à disposição é o principal obstáculo para sua aceitação. É também a principal ameaça à nossa autoconfiança: certamente a resposta para os problemas que nos afligem deve estar em algum lugar daquela massa impressionante de informação. Portanto, ser incapaz de encontrá-la trará como consequência imediata e concreta autodepreciação e o autoescárnio (BAUMAN, 2010, p. 58).

            A mesma dinâmica que fundamenta a lógica do capital inspira a educação para a informação. Quatro elos se unem para formar a corrente do saber para resolver: encontrar informações, tratar as informações com foco no problema, desenvolver meios de resolução do problema e, por fim, tornar estes meios em negócio. Da visão clássica de conhecer para ser, nasce a postura do conhecer para vender. Temos a transformação do ser para negociar resultados ou atingir metas pessoais e organizacionais. Segundo Bauman,

[...] Atribuir importância às diversas informações e, sobretudo, atribuir maior importância a umas que a outras talvez seja a tarefa mais desconcertante e a decisão mais difícil. O único critério prático que se pode adotar é a pertinência momentânea, mas ela também muda de um momento para outro, e as informações assimiladas perdem significado assim que são utilizadas. Como outros produtos no mercado, elas são destinadas ao instantâneo, imediato e único (BAUMAN, 2010, p.59-60).

            A leitura de Bauman nos coloca em frente do fato de que o processo formativo se vê forçado, pela pressão circunstancial, em seguir a lógica constituída: responder rapidamente aos desafios. Trata-se de uma atitude pessoal, mas também coletiva, que vai sendo formada para instituir as opções que farão continuamente a superação do permanente ou sólido. Trata-se de um ser formado para “ser leve e líquido” (BAUMAN, 2001, p.07). Esta dinâmica, numa esfera macro – âmbito mundial (BAUMAN, 1999) –, pode ser percebida nas palavras do pensador.

[...] Ao longo do estágio sólido da era moderna, os hábitos nômades foram malvistos. A cidadania andava de mãos dadas com o assentamento, e a falta de ‘endereço fixo’ e de ‘estado de origem’ significava exclusão da comunidade obediente e protegida pelas leis [...]. Estamos testemunhando a vingança do nomadismo contra o princípio da territorialidade e do assentamento. No estágio fluido da modernidade, a maioria assentada é dominada pela elite nômade e extraterritorial [...].
A elite global contemporânea é formada no padrão do velho estilo dos ‘sonhos ausentes’. Ela pode dominar sem se ocupar com a administração, gerenciamento, bem-estar, ou, ainda, com a missão de ‘levar a luz’, ‘reformar os modos’, elevar moralmente, ‘civilizar’ e com cruzadas culturais (BAUMAN, 2001, p. 21-22).

            É claro que esta compreensão macro reflete sobre uma dimensão micro – âmbito pessoal. Tentando responder aos desafios do seu tempo e do seu espaço circunstancial, o indivíduo se adapta à transformação espaço-temporal, liquidificando-se.

[...] A noção individualista e liberal do princípio da adaptação transformava-se em princípio de formação do homem real, quer dizer, o homem político; o ideal humano geral e humanitário transformava-se em diretivas determinadas em função da história e da nação. Assim se efetuava uma conexão muito característica entre os princípios da existência e da essência; ao mesmo tempo, deixava de se considerar a existência humana como questão pessoal e particular, reconhecendo a sua participação na vida política da nação, começava-se a dar-lhe uma determinada direção e a associar-lhe um ideal. Em vez de dedicar uma vida em solicitude, ‘sem orientação’, era guiada de modo a aceitar um determinado ‘estilo de vida’. Ao mesmo tempo, a crítica à ‘cultura desligada das contingências’ e ao idealismo de caráter universal fazia do ideal a expressão de ‘vontade coletiva’, da vida política da época (SUCHODOLSKI, 2002).

Adaptar-se, aqui, significa assumir para si a condição de transforma-se. Condição de mudar o seu estado de ser. Esta transformação na condição de ser é algo disseminada na cultura pós-moderna. Está implícita em diferentes posturas de formar o indivíduo. Entretanto, a mais imperante é formá-lo para ser “leve e líquido”, ser flexível e adaptável. Um ser de não resistência.
            A educação pós-moderna vivencia também a tensão entre o preservar, conservar e o inovar para se renovar, enquanto condição significativa. Para manter-se ainda significativo, o processo educacional adapta-se aos anseios de uma construção social que se torna volátil, efêmero, e, o que é crítico, superficial. Não há, aqui, a generalização. Há, sim, uma indicação dos indícios do manifestar e do estruturar de modelos educacionais. O ato de educar passa a ser regido pela mesma tendência que orienta o mercado: atender demandas (BAUMAN, 2008a, p. 172). O processo educativo passa a ter foco nas metas qualitativas e quantitativas, impostas por organismos internacionais, que mais estão interessados na formação para a produção. É o modelo educacional fomentado e instituído pelo capitalismo contemporâneo.[7]

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

            A perspectiva educacional do humano contemporâneo tem apresentado uma forte tendência em atender uma postura de conciliação entre necessidade mercadológica e flexibilização do ser. As teorias pedagógicas que nasceram no século passado e nos anteriores têm esbarrado na dinâmica assumida pelo ser humano na sociedade do consumo. Esta referência conceitual da sociedade Pós-Moderna provoca, de início, um reposicionamento intelectivo sobre rumos que podem ser assumidos pelo processo formativo.
            Pela tensão entre a ruptura e a continuidade com os modelos educativos, a perspectiva formativa contemporânea desloca seu foco: formação do sujeito para responder aos desafios do mundo em transformação. Disto decorre que os projetos iluminista e humanista ressoam pouco frente à dinâmica da sociedade “líquida”. Entretanto, mesmo que o “novo” seja posto em evidência como pauta formativa do sujeito contemporâneo – um eu adaptado ao meio e flexível às mudanças –, sujeito não pode ser formado sem a possibilidade de relações significativas com outros sujeitos. Não pode ser formado sem a perspectiva do engajamento.
            Nesta possibilidade da formação para a relação, para a convivência e para a significação de ser é que reside a “esperança” formativa na sociedade líquida. É fato que o contexto contemporâneo tem propiciado diferentes meios de acesso às fontes de conhecimento. Contudo, a construção contínua da pessoa é um referencial que não pode ter prejuízo de continuidade. Educar é sempre um ato de promoção. Formar é sempre parte de um projeto de construção, seja de pessoas ou organização. Sendo assim, mesmo que haja uma interpretação pessimista da leitura de Bauman, o fato é que ele é um intelectual que acredita no potencial humano. “[...] Mas eu acredito (e não vejo uma razão válida para rever essa crença) que é possível um mundo diferente e de alguma forma melhor do que o que temos agora” (BAUMAN, 2010, p. 89).


REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Bauman sobre Bauman. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
________. Capitalismo parasitário e outros temas contemporâneos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2010.
________Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997.
________. Globalização: As consequências humanas. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
________. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
________Sociedade individualizada (A): vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Zahar, 2008a.

________. Sobre educação e juventude: Conversa com Riccardo Mazzeo. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.
________. Vida para o Consumo: A transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008b.
BIDO, José Mateus. A problemática da pós-modernidade. Uma leitura sobre o viver do homem na modernidade. Londrina: UEL, 2001.
HARVEY, David. A condição pós-moderna: Uma pesquisa sobre as Origens da Mudança Cultural. São Paulo: Loyola, 1993.
________. O enigma do capitalismo: e as crises do capitalismo. São Paulo, SP: Boitempo, 2011.
LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. 15ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2013.
PALANGANA, Isilda Campaner. Individualidade: afirmação e negação na sociedade capitalista. 2ª ed. São Paulo: Summus, 2002.


SUCHODOLSKI, Bogdan. A pedagogia e as grandes correntes filosóficas: a pedagogia da essência e a pedagogia da existência. São Paulo: Centauro, 2002.

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