CONSIDERAÇÕES SOBRE A VIVÊNCIA RELIGIOSA DOS TUPINAMBÁS
Dirce Bortotti
Salvadori[1]
Dentre
os inúmeros grupos indígenas brasileiros os mais comentados e conhecidos são os
Tupinambás que habitavam a costa brasileira nos dois primeiros séculos da
conquista[2]. As populações não Tupi levavam a
denominação genérica de Tapuia e, além daqueles já citados, tinham sido
expulsos do litoral pela conquista Tupi. Sobre isso, o cronista do século XVI,
Pero de Magalhães Gandavo escreveu[3]: “[...] ainda que estejam divisos, e haja
entre elles diversos nomes de nações, todavia na semelhança, condição,
costumes, e ritos gentílicos, todos sam huns; e se nalguma maneira diffrem
nesta parte, he tam pouco, que se nam pode fazer caso disso, nem particularizar
cousas semelhantes entre outras mais notáveis, que todos geralmente seguem,
como logo adiante direi”[4].
Estevão
Pinto menciona que ”os tupinambás eram, como se sabe, uma das mais importantes
greis ou tribus primitivas do Brasil (sec.XVI e XVII). Aos tupinambás
estavam filiados quase todos os povos aborígines
do litoral [...]”[5]. Varnhagen ao falar dos índios
denomina-os de “gentes vagabundas que, guerreando sempre, povoavam o terreno
que hoje é do Brasil, eram pela maior parte verdadeiras emanações de uma só
raça ou grande nação [...]”. E não só falavam dialectos idênticos como em
geral, se denominavam a si quase sempre do mesmo modo: tupinambá[6].
Sobre
a questão da denominação do grupo mais conhecido, sua organização social e
localização, a maioria dos cronistas está de acordo, sendo poucos os casos onde
se menciona a possibilidade do grupo tupinambá ter representações em outras
localidades que as já citadas. Todos concordam quanto ao tronco comum para a
origem principalmente dada a semelhança e proximidade das línguas.
A
respeito da questão religiosa entre os indígenas os cronistas cometeram
inúmeras contradições em seus escritos. Segundo nos parece isso acontece porque
se deixavam levar por opiniões momentâneas, sem observações aprofundadas. É
curioso observar que muitos cometem o engano de afirmar que os índios não
tinham religião. Gandavo, por exemplo, o diz da seguinte maneira: A
lingua deste gentio toda pela Costa he, huma: carece de tres letras – scilicet,
não se acha nella F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assi não têm
Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente”[7]. Mais adiante o cronista retoma a questão
da religião e reafirma: “Nam adoram a cousa alguma, nem têm pera si
que há depois da morte gloria pera os bons e pena pera os maos, e o que sentem
da immortalidade dalma nam he mais que terem pera si que seus”[8].
Colombo
e o padre Manoel da Nóbrega (1549-1560) também fizeram essa afirmação e entre a
chegada de um e de outro há um bom número de anos. Manoel da Nóbrega disse:
“Esta gentilidade nenhuma cousa adora, nem conhece a Deus; sómente aos trovões
chama Tupane, que é como quem diz cousa divina. E assim nós não temos outro
vocabulo mais conveniente para trazer os conhecimentos de Deus, que chamar-lhe
Pae Tupane”[9]. Portanto, por motivos que não sabemos
exatamente os quais, e podemos apenas inferir, muitos cronistas e religiosos,
além de outros observadores, acreditaram que os indígenas não possuíam nenhuma
religião. Hélène Clastres observa que Jean de Lery exprime de maneira admirável
a opinião geral sobre os povos americanos, quando diz:
[...] além de nenhum conhecimento terem
do verdadeiro Deus, estão aquém de todos os antigos pagãos, que tiveram a
pluralidade dos deuses, e dos idólatras de hoje, e até mesmo dos índios do
Peru. [...] eles não confessam, nem adoram nenhum deus celeste ou terrestre: e,
por conseguinte, não tendo nenhum ritual ou lugar determinado de reunião para a
prática de algum serviço religioso, não oram em forma de religião, quer em
público, quer em privado, coisa alguma que seja[10].
Dentre
os padres, nos séculos XVI e XVII, o franciscano André Thevet[11], que “em 1550 e em 1554, fez duas
viagens ao Brasil”, parece ser o que melhor descreveu os mitos tupinambás,
contradizendo a grande maioria dos cronistas sobre sua
inexistência. No entanto, nem mesmo Thevet parece ter se dado conta
de que os mitos e lendas que compilara, eram amostras explícitas da
religiosidade dos indígenas.
Métraux
entende que Thevet produziu as melhores “fontes informativas sobre a religião
dos índios Tupinambás”[12] e ressalta, porém, que a
ausência do espírito crítico, a capacidade de espantar-se com tudo e o fato de
anotar “sempre as mesmas particularidades” fizeram com que o frade cometesse
“contradições ou absurdos”[13]. Entretanto, a melhor obra de
referências que nos foi possível encontrar para compreender a mitologia
indígena, foi a obra de Métraux, que analisa Thevet, traduzida para o português
por Estevão Pinto. Por esta razão, ao longo desse texto, embora tenhamos
consultado e citemos outros autores, nossas fontes básicas de referencias serão
Thevet e Metraux. Seguindo a hierarquia divina dos tupinambás anotada por
Thevet, Métraux coloca-nos o seguinte:
A mitologia tupinambá, pelo menos sob a
forma transmitida por Thevet[14], parece ter conhecido uma linhagem de
heróis-civilizadores, unidos entre si por laços de parentesco, por conta dos
quais são atribuídos atos que, segundo a tradição de certos povos de mesma
raça, cabem exclusivamente a um só de seus super-homens. Essa multiplicidade de
heróis civilizadores não é, segundo nos parece, senão aparente, conforme se
poderá demonstrar com a analise exaustiva do texto de Thevet”[15].
A
grande questão colocada por Métraux, sobre a análise de Thevet, e com a qual
concorda o tradutor, Estevão Pinto, está vinculada ao fato de que para um mesmo
personagem divino os indígenas atribuem diversos nomes, segundo a ação
corporificada. No caso de Monan, “primeiro na série de heróis civilizadores”, e
que segundo Thevet é “um astro sem fim e princípio que criou o céu, a terra, os
pássaros e os animais no mundo existentes”[16] pudemos verificar que,
realmente, esta entidade recebe mais de uma denominação, conforme a ação
executada. Outra questão sobre a qual Métraux chama a atenção é para a
semelhança entre Monan e o Deus dos cristãos, no que se refere ao princípio da
geração e imortalidade – “um astro sem fim ou princípio” – e, que segundo ele,
pode demonstrar a preocupação de Thevet em “encontrar-lhe traços de uma antiga
revelação”[17]. No entanto, logo mais à frente, no
texto de Thevet, verifica Métraux que há uma implícita observação
sobre a diferença de caráter entre o Deus dos cristãos e os
heróis-civilizadores tupinambás, quando acrescenta que Monan não criou “o mar,
nem aman attouppane, isto é, as chuvas.” Os oceanos e os rios teriam
sido formados posteriormente, após o incêndio do mundo, e em seguida
ao dilúvio. Sobre a imortalidade de Monan, parece não haver qualquer correção
posterior em Thevet, situação com a qual Métraux não concorda pelo simples fato
de entender que os índios desconhecem a noção de imortalidade. “Assim, por
exemplo, os chipaias não vêem nos demônios, que geraram o universo e mantém
relações com os mencionados indígenas, seres com o poder de escapar, por sua
natureza, aos riscos do perecimento, peculiar a todos os indivíduos”[18]. Além disso, Métraux observa que “a
morte de Maire-monan" é atribuída pelos índios a mãos humanas. Segundo
ainda a narrativa de Métraux, Monan criara o mundo, e à semelhança do Deus dos
cristãos, também foi o “destruidor da primeira leva humana que ocupava a terra”[19], devido às suas culpas ( embora se
ignore que culpas pudessem ser estas) depois, também à semelhança do
Deus dos cristãos, repovoou-a. A diferença entre Monan e o Deus dos cristãos
nessas ações, estão no fato de que Monan não se utilizou apenas do dilúvio;
após este acontecimento modifica o aspecto do mundo “por meio de incêndios e
inundações dado o seu caráter transformador”[20].
Na
hierarquia tupinambá, a Monan segue-se Maire,[21] que segundo Thevet significa
“transformador” e é aquele que “deu ordem, de acordo com seu bel prazer, a
todas as coisas, afeiçoando-as de vários modos e, em seguida convertendo-as em
diversas figuras e formas de animais, de pássaros e de peixes, de conformidade
com as regiões; até mudando o homem em animal para puní-lo, como bem lhe
parecia, por sua maldade”[22]
As
práticas sagradas ou mágicas que os tupinambás realizavam por ocasião da
chegada dos europeus eram devidas a Maire-monan, assim também seus hábitos e
costumes, como por exemplo: “da tonsura, da epilação e do achatamento do nariz
dos recém-nascidos [...], fora Monan quem lhes desaconselhara a comer carne dos
animais pesados ou lentos, recomendando ao contrário, o uso da carne dos
animais ligeiros, porque tornam os homens mais ágeis”[23]
Do
ponto de vista civilizador, Maire-Monan teria introduzido a “agricultura entre
os antepassados dos tupinambás, trazendo-lhes todos os vegetais que serviam de
base a alimentação de seus descendentes”[24], mostrando-lhes as que podiam ser
utilizadas como alimentos, e as que não podiam e ensinando-os ainda como utilizar-se
dos princípios medicinais das ervas. Maire-Monan outras vezes é tido como o
personagem Sommay, que é citado como um grande Pajé e que, em algumas
narrativas, como é caso de Thevet[25], aparece como pai de “dois irmãos
Aricoute e Tamendonare, os provocadores do dilúvio”[26]. Muitos cronistas citam a possibilidade
de que Sommay seja São Tomé, o apóstolo de Cristo. Diversos cronistas
mencionaram esse personagem, mesmo que em situações distintas, ou seja, como
responsável por tradições distintas. A maioria deles atribui-lhe a
responsabilidade pela alimentação dos índios: São Thomé teria lhes ensinado a
utilização da mandioca. Sobre esta questão o Padre Manoel da Nóbrega em carta
ao Padre Mestre Simão (1549), diz: “Também me contou pessoa fidedigna que as
raizes de que cá se faz o pão, que S. Thomé as deu, porque cá não tinham pão
nenhum. E isto se sabe da fama que anda entre eles, quia patres eorum
nuntiaverunt eis. Estão d’aqui perto umas pisadas figuradas em uma rocha, que
todos dizem serem suas. Como tivermos mais vagar, havemol-as de ir ver” [27]. Vicente Rodrigues[28] menciona: “Fizemos ainda uma cruz e
a levamos em procissão até as pegadas de S. Thomé, que estão perto d’aqui”[29] .
Segundo
Thevet, o dilúvio teria sido causado por uma querela entre os filhos de Sommay,
tendo como consequência a morte de Maire-Monan. Analisando a questão, Métraux
comenta:
Há desse modo, uma relação entre ambos
os mitos, que provavelmente, são identicos. Devo confessar, todavia, que essa
verificação seria insuficiente para justificar tal identidade, se, nas cronicas
portuguesas, Sommay, ou Sumé, não parecesse investido das mesmas
características peculiares a Maire-monan. O próprio Thevet tem vaga ideia do
erro cometido, ao distinguir os dois, pois estabelece entre ambos liames de
parentesco, fazendo do segundo um descendente do primeiro[30].
Sobre
a questão de atribuição de funções mágicas aos estrangeiros, como acontece com
o personagem que se pretende fosse S. Thomé, cumpre observar que os diversos
cronistas consultados mencionam a possibilidade dos indígenas terem visto os
homens brancos, que chegaram com o processo de descoberta e colonização, como
“deuses”, seres mágicos, seja em vista de situação precedente, seja em vista
das comprovadas diferenças de hábitos e cultura.
Tendo
em vista o exposto torna-se importante observarmos que, alheios às vivências
indígenas, tendo contato com diversas tribos e como barreira principal a diferença
da língua, é notório que as interpretações da religiosidade indígena fossem
feitas através de inferências culturais dos diversos colonizadores, pela
tentativa de aproximação dos mitos. Assim como podemos entender que na
mitologia grega as diferentes denominações dos deuses acontecessem por funções
diversas de um mesmo princípio, conforme sua atuação nos quatro elementos
primordiais: sol, ar, fogo e terra, podemos inferir também que os
indígenas atribuíssem diversas denominações a um mesmo princípio sagrado e
gerador, conforme lhes atribuíssem funções. Este entendimento pode ser
corroborado pela existência das crônicas que dão de um mesmo elemento,
variações diversas[31]. O padre Anchieta também menciona o
personagem que se imaginou fosse São Tomé[32]: “O outro homem chamavam Maira, que
dizem que lhes fazia mal e era contrário de Çumé; e por esta causa os que estão
de guerra com os Portugueses, lhes chamam Maira”.
Muita
confusão ocorreu por causa das diferenças de língua e da livre-interpretação de
nossos cronistas na narrativa da religião dos índios
brasileiros. Atendo-nos à interpretação explicitada podemos entender
que o que dizem as crônicas sobre a religião dos índios pode ser levado em
consideração de forma criteriosa, já que um estudo mais profundo da linguagem
atribui sentidos definidos às palavras de uma mesma raiz, como é o caso do
principal herói-civilizador.
Os
índios brasileiros, como outros povos primitivos, cultuavam os elementos da
natureza, na tentativa de explicitar as relações entre o mundo material e os
homens. Semelhante aos povos da Antiguidade, os indígenas brasileiros do século
XVI, tinham muitos deuses e eles cumpriam com a finalidade de explicar o mundo
e justificá-lo. Há, no entanto, certa dúvida, nascida de uma questão que não se
sabe exatamente se faz parte do lendário das tribos indígenas, ou se lhes foi
transmitido pela tradição oral tardia — através das gerações mais recentes — já
que existem inúmeras suspeitas sobre a vinda de homens de outros povos, em
outros tempos, às terras brasileiras[33]. No entanto, deve-se levar em
consideração o fato de que os índios do Brasil vieram de outras regiões do
globo. Como as migrações se deram em levas sucessivas, a tradição oral sobre
personagens de outras culturas que os tenham visitado, bem como o personagem em
questão, a quem atribuem o nome de Sumé, pode ter se originado em outras
terras. Métraux é da opinião que Sumé só surge entre os indígenas
tardiamente. Thevet por sua vez, considera-o um personagem puramente
indígena. Nesses casos, a aproximação de Sumé, Sommay, ou Çumé, com Thomé, pode
ser puramente coincidência, que bem aproveitada pelos catequizadores,
cristianizou-se na figura do apóstolo de Jesus.
Thevet
apresentou inúmeras variações de um mesmo mito e desse mito principal que
Métraux analisou, visando entender-lhes a procedência e a veracidade,
estabelecendo relações entre outros cronistas e suas narrativas. Sebastião
Pinto[34] após criterioso estudo dos mitos
apresentados por Thevet e analisados por Métraux, elabora um quadro-síntese dos
heróis-civilizadores, que, apesar das dúvidas suscitadas pelo analista,
julgamos interessante apresentar na sequência.
Thevet, no entanto, não fica somente com estes personagens. Ele nos dá toda uma gama de divindades que cumprem com papéis definidos na mitologia indígena. Além dos personagens já citados, aparecem ainda como heróis civilizadores Maire-pochy ou Maire po-chi, personagem da família de Monan; personificação do sol. Ehreinreich[35] parece ter conseguido provar que este mito é de influencia peruviana, adquirindo posteriormente feições dos mitos tupi-guarani. “A influencia peruviana é tão evidente que os tupinambás são, de toda a família tupica, os únicos entre os quais, de acordo com os modernos conhecimentos, existe esse episódio mitico. [...] Mas não se deve concluir, daí, que tudo é incasico no mito de Maire-pochy, pois o mesmo contém elementos pertencentes ao complexo das crenças e tradições próprias dos tupi-guarani”[36]. A lenda de Maire-pochy descrita por Métraux, é a seguinte:
[...] Maire-pochy e sua mulher,
expulsos da aldeia, recolheram-se ao mato, onde fizeram enormes roçados dos
quais auferiram soberbas colheitas. Em seguida, Maire-pochy convidou seus cunhados,
que ocorreram pressurosos ao chamado, tanto mais quanto se achavam ameaçados de
penúria. E disso resultou mal para todos, pois os parentes, acompanhados de
seus pais, foram transformados em diversos animais, tendo igual sorte o velho
cacique e sua esposa, os quais haviam desdenhado dos predicados sobrenaturais
de Maire-pochy[37]
Semelhante
ao mito de Maire-pochy, há o mito de Tatu-tunpa e Aguara-tunpa, que mesmo se
referindo a animais têm a mesma conotação das lendas dos heróis civilizadores.
Diz a lenda que estes dois personagens apresentam-se em uma aldeia interessados
em casar-se com a linda filha do chefe. Ocorre que estando a moça prometida a
Tatu-tunpa, concedem-na a Aguara-tunpa, “que havia desfigurado seu
rival”. A
Tatu-tunpa concedem uma irmã da linda jovem, que segundo a lenda era a “mais
feia das filhas do chefe”. Na tentativa de recuperar a noiva
perdida, Tatu-tunpa “desbastou, miraculosamente, uma vasta extensão de mata,
que, num fechar de olhos, cobriu-se de maravilhosos frutos e legumes. Os
cunhados após longa relutância vieram visitá-lo”[38] e para o herói é a hora da
vingança. Deixa a sogra presa sob uma grande abóbora para castigá-la
por tê-lo preterido, e a seguir recupera sua figura original, transformando-se
em belo jovem.[39]
Uma
terceira variação do mito de Maire-pochy pertence às lendas tupicas, nela
Maire-pochy tem um filho que deseja acompanhá-lo quando o herói decide
abandonar a esposa e retornar ao Céu. Maire-pochy transforma então o
filho num rochedo, mais tarde, porém, restitui-lhe a forma original. O filho de
Maire- pochy usava um chapéu de largas abas ( “sombreiro”), feito de línguas de
fogo. Certo dia alguém lhe pede o chapéu emprestado e sofre cruéis queimaduras.
Para apaziguar o sofrimento lança-se numa lagoa e transforma-se animal
denominado saracura.[40] O filho de Maire-pochy retorna para
perto de seu pai, que não era outro senão Caroubsouz, o sol[41] .
Esta
não é a única maneira pela qual os índios descrevem o sol. Seu aspecto varia
conforme o grupo que narra a lenda. Para algumas tribos ele faz parte dos
heróis - civilizadores, outras já não o assimilam assim. Podemos perceber que é
comum que a um mesmo personagem mítico se atribuam diversas denominações. Como
já afirmávamos anteriormente, isto parece estar vinculado às diferentes funções
desempenhadas por um mesmo mito. Exemplo disso pode ser percebido ainda em
Métraux, quando afirma que: “Os chipaias ainda hoje assim procedem, designando
seu herói-civilizador, o demônio Kumãjári, sob quatro
diferentes nomes, ou seja, ora Sekárika, “nosso criador”, ora Semãwaja, ora, enfim,
Marasawa (quando é considerado pai dos gêmeos)[42]
Os
gêmeos têm também papel de destaque na mitologia dos índios tupinambás, pois seu
trabalho tem caráter conclusivo sobre o que já executou o herói principal.
“Enquanto nos mitos dos apapocuvas e dos tembés só se fala de dois gêmeos, a
versão tupinambá comporta um episódio à parte, no qual figuram dois irmãos,
Tamendonare e Aricoute, que são claramente distintos daqueles”[43]. Como os gêmeos foram desdobrados,
transformando-se em vários personagens, não se sabe se o mito evoluiu
naturalmente na sociedade indígenas, ou se a questão se deve à confusão entre o
que se informou e o que se anotou da lenda.
Aricoute
e Tamendonare são filhos de Sumé, os gêmeos são filhos de Maira-atá, por outro
lado, o compilador da lenda dá a entender que Sumé e Maira-atá são os mesmos
personagens. O frade Thevet quando apresenta o mito dos irmãos gêmeos “faz
referencias a duas destruições sucessivas do mundo”[44]. Na primeira destruição Monan faz descer
fogo de céu e o universo é destruído. Neste processo, o solo que era plano,
torna-se inteiramente remodelado e toma a forma irregular.[45] Enquanto Monan provoca essa
destruição, Irin-magé, conserva-se protegido no céu e vendo o que ocorria
resolve implorar a Monan que “repusesse a terra em seu estado primitivo.”
Ouvindo as súplicas de Irin-magé, Monan provoca “abundante chuva com o objetivo
de extinguir o incêndio por ele ateado. O escoar das águas do dilúvio pelas
fendas que sulcavam a terra provocaram o nascimento dos rios e do mar, as
cinzas do incêndio diluídas nas águas oceânicas deram-lhe a característica
salina”. Como Irin-magé estava só, “Monan deu-lhe uma mulher e desse casal se
originou a humanidade, que repovoou o globo após o cataclismo” [46].
Na
outra versão do dilúvio dada pela cosmogonia compilada por Thevet, a destruição
do mundo acontece por ação de Tamendonare, que se irrita com seu irmão Aricoute
por que este lhe atira “o braço de um inimigo morto”[47]. No momento em que o arremesso de
Aricoute acontece ambos estão numa aldeia que se vê arrebatada ao céu e
Tamendonare “bateu tão rudemente na terra a ponto de fazer jorrar uma enorme e
alta fonte de água, que em pouco tempo cobriu as colinas e oiteiros e parecia
ultrapassar a altitude das nuvens”[48].Vendo o que acontecia, os dois irmãos
fogem para as montanhas, onde se alojam no cume das árvores, na tentativa de
escapar da catástrofe. “Tamendonare subiu, em companhia de sua mulher, ao
píncaro de uma palmeira de nome pindo[49] e Aricoute, seguido igualmente da
sua, trepou-se em um jenipapeiro. Quando Aricoute desejava saber se as águas
haviam baixado, lançava, de tempos em tempos, frutos do jenipapeiro ao pé da
árvore. Depois foi a terra repovoada pelos dois manos”[50].
Outras
versões da história mítica dos tupinambás, contadas por tribos apapocuvas,
chiriguanos e tempés, dentre outras, também mencionam os dois irmãos. Portanto,
a destruição da terra pelo fogo e pela água e a reconstrução a pedido de um
herói que se salva, faz parte das tradições de inúmeros grupos indígenas. Ora é
Ñanderiqey o destruidor e Guyraypoty é o herói salvador da raça humana, ora é
Aguara-tunpa quem destrói e uma menina e seu irmão são os heróis salvadores;
ora é Irin-magé quem destrói, e Tupan interfere, salvando a humanidade. Embora
variem as denominações dos seres destruidores e dos heróis salvadores, podemos
constatar que seja entre os apopocuvas, entre os chiriguanos ou entre os
tempés, dentre outros, o mito é similar e está sempre relacionado aos gêmeos.
Entre
os chipaias o mito do dilúvio sofre algumas alterações, ligando-se inteiramente
à vida dos gêmeos, que nesse caso são filhos do demônio Kumãjári. Denominados
de Kuñarima e Arubiatá, os irmãos “quebram dois vasos que
continham a única reserva de água existente nesse tempo fabuloso”[51] . Enfurecido o pai inunda a terra,
e para punir ainda mais os filhos, ateia fogo às colheitas. Quem extingue o
fogo é Kuñarima, que se utiliza de “uma especie de hissope feito das plumas de
diversas aves”[52].
Parece
não haver entre os indígenas um mito de criação da humanidade, salvo entre os
mundurucus, que contam que a humanidade “fôra extraída do chão através de um
buraco, que Rayrú fez na crosta terrestre. Por esse artificio, pôde ele
descobrir os seres existentes no sub-solo e iça-los com uma corda de
algodão” [53].
Quanto
à origem do fogo existem duas lendas recolhidas entre as tribos tupinambás. Na
primeira, o fogo é guardado por Monan no “dorso de uma preguiça” de onde o
furtam os irmãos Tamendonare e Aricoute que o entregam aos homens. Na outra
versão dos tupinambás o caraíba Maire-Monan ou Bicbotou revela à humanidade
como produzi-lo. Outras tribos de tradição tupi-guarani entendem que o fogo foi
raptado por Ñanderiquey, que auxiliado pelo sapo toma-o dos abutres. Em outras
tradições o sapo é o quem traz o fogo. De qualquer forma, o que se
pode observar de comum nas lendas do fogo, é o fato dele ter sido roubado de
alguém para ser entregue ao homem.
Os
indígenas ainda têm lendas referentes às estrelas, à lua, ao sol. Para eles o
sol, a lua e as estrelas têm poderes, embora, segundo Thevet[54], os tupinambás não saibam dizer
exatamente quais sejam. Sabem, no entanto, que “as pleiades favoreciam o
crescimento da mandioca.”[55].
Quando
os padres que aqui vieram para a catequese quiseram encontrar na língua
indígena uma palavra que lhes permitisse transmitir o sentido e o significado
de “Deus”, escolheram a palavra Tupan, por entender que para os indígenas esta
palavra tinha o mesmo sentido e significado que a palavra “Deus” para os
cristãos. Segundo Estevão Pinto[56], Thevet estava correto ao identificar
aquele que os indígenas Tupinambás denominam de Tupã, como seu herói- civilizador:
“Tupã possivelmente, simboliza o demiurgo, o ancestral, o antepassado mítico
[...]. A semelhança de Tupã com Mair-munhã denuncia-se nos predicados sexuais a
que se acha ligado [...]”.
Os
compêndios de História do Brasil gravaram e transmitiram às gerações que o
grande deus dos índios brasileiros era Tupã, deus do trovão. Nas
escolas, as crianças jamais ouviram falar em outros heróis-civilizadores, como
Maira-Monan, ou Mair-munhã, talvez porque, num país que se pretendeu católico,
fosse mais difícil associar outros deuses ao Deus cristão e
explicá-los. Além das entidades citadas, os indígenas acreditavam
também em seres sobrenaturais que viviam nas matas. Esses seres, conforme
Métraux[57] “pertenciam a duas categorias: uns
eram potencias malévolas, personificadas, comparáveis aos nossos gênios e
demônios; outros compreendiam os espíritos propriamente ditos. Os últimos
contavam maior numero e só se distinguiam dos primeiros por seu caráter
impessoal.” Thevet[58] menciona que os tupis habitantes
das proximidades do Cabo de Santo Agostinho “temiam o diabo, a que davam o nome
de Giroppaly [...] os silvicolas que vivem no Rio de Janeiro e no Cabo Frio
chamam-no Agnan”. Outros cronistas, quando se referem a essas entidades
denominam-nas de Jurupari[59] e Anhanga, Yurupari e Aygnan,
Agnen, Ingange, Anhangá. Yurupari, segundo crônicas escritas pelos
missionários, corresponde ao diabo da religião católica. Conta-nos Yves
D’Évreux[60] que os maus espíritos, ou demônios,
vivem sob a dependência de Giropari. Ele era domestico de Deus que, por causa
de suas maldades, o expulsou e não quis mais saber dele. Esse diabo odeia a
humanidade e não vale nada. É ainda o mesmo que impede que as chuvas caiam a
tempo, maltratando os homens, fazendo-lhes medo e atraiçoando-os em suas
guerras aos inimigos. Anchieta menciona que “É cousa sabida e pela bôca de
todos corre que há certos demonios, a que os Brasis chamam corupira, que
acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhes de açoites, machucam-os e
matam-os”[61].
Além
das crenças já citadas os tupinambás acreditavam também que estavam rodeados
por uma multidão de espíritos, “que perambulam por toda parte, sobretudo em
matas e sítios obscuros, de aspecto parcialmente sinistro”[62], como por exemplo nas proximidades das
tumbas. Acreditavam que as almas dos finados parentes e amigos voltavam para
atormentá-los; caso tivessem navegando no mar ou nos rios atrás de inimigos e
acontecesse uma tempestade, atribuíam-na às almas dos finados parentes e amigos
e para acalmá-las lançavam oferendas às águas.[63]
José
de Anchieta, quando faz referência ao “corupira”, menciona também que para
livrar-se desses espíritos “costumam os Indios deixar em certo caminho, que por
asperas brenhas vai ter ao interior das terras, no cume da mais alta montanha,
quando por cá passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras cousas
semelhantes, como uma espécie de oblação, rogando fervorosamente aos curupiras
que não lhes façam mal[64].
Algumas
lendas ainda existentes na cultura popular brasileira mencionam que certos
pássaros, ou mesmo o canto de certos pássaros, são de
mau-agouro. Vamos encontrar as origens dessas lendas entre os
indígenas. Para eles os maus espíritos poderiam utilizar-se de algumas aves
e/ou animais para transmitir mensagens aos vivos. “Os espíritos
apareciam aos homens sob a feição de animais estranhos e bizarros. Ora sob a
forma de pássaros negros, ora sob a forma de morcegos[65] ou de salamandras[66]” A noite parece ser o ambiente preferido
desses espíritos, pois segundo Métraux: “À noite, as trevas enchiam-se de
espíritos, que redobravam de audacia; mas era suficiente acender uma fogueira
ao pé da rede para ficar a salvo de seus males”[67]. Em outra questão apontada
por Métraux consta que:
Uma das numerosas causas do exito
obtido pelo catolicismo entre os tupinambás, consistia principalmente da
promessa, feita pelos missionários, de conservar os maus espíritos afastados de
suas aldeias, se, – diziam – cruzes fôssem erguidas e plantadas. Desde que a
notícia da eficácia desse simbolo se expandiu entre os habitantes da ilha do
Maranhão, os indigenas se apressaram em mandar delegações aos capuchinhos
franceses com o objetivo de suplicar-lhes mandar erigir, em suas aldeias,
cruzes, para o fim de pô-los ao abrigo dos ataques de ‘Jéropari’[68]
Mas
nem só de maus espíritos era povoado o imaginário indígena, havia também
[...] certo número deles tidos como
animados de sentimentos benevolentes em relação à humanidade: eram os Apoiaueué[69]. Assim como os maus espíritos eram
responsabilizados pelo mau tempo, chuvas em excesso, temporais e outros
problemas, os bons espíritos ‘lhes atraem, em tempo oportuno, as chuvas, não
destruindo as suas plantações, nem jamais os atormentando ou batendo’. E quando
vão ao céu, contam a Deus tudo o que se passa em baixo, dizendo-lhes que os
referidos bons espíritos não fazem medo aos índios quer à noite, quer nos
bosques.[70].
Os indígenas acreditavam ainda que o maracá era capaz de reproduzir a voz dos espíritos, mas para isso necessitava, antecipadamente, de ser impregnado de uma força “que só os feiticeiros lhe podiam dar” .Métraux (1950, pp.142-1480), Nimuendajú (1914, p.1027), Vasconcelos (1865, p.101), Yves d’Évreux (1864, p.117), mencionam o papel dos maracás na cultura indígena, aludindo ao fato de que o instrumento também era utilizado, não só para musicas mas também para rituais mágicos, nos quais o feiticeiro invocava os espíritos dos ancestrais. Segundo Vasconcelos:
Usam alguns de um cabaço a modo de
cabeça de um homem fingida, com cabelos, orelhas, narizes, olhos e boca:
estriba esta sobre uma frecha, como sobre pescoço, e quando querem dar seus
oraculos, fazem fumo dentro deste cabaço com folhas secas de tabaco queimadas;
e do fumo que sai pelos olhos, ouvidos e boca da fingida cabeça, recebem pelos
narizes tanto, até que com ele ficam perturbados, e como tomados do vinho[71]
Os
índios usam as cabaácas para construir cabeças que podiam ser mais
aperfeiçoadas, acrescentando-lhes um maxilar móvel, olhos, etc. Anchieta nos
conta que: “Um dia antes da batalha, fizeram uma pequena cabana, segundo seu
costume, onde puseram uma cabaça cheia ao modo de rosto humano, ataviada com
plumas; os feiticeiros que fazem isso chamam pajés, para sacrificar-lhe e
perguntar-lhe do sucesso da guerra”[72]. Segundo nota de Estevão Pinto, letra
(k), citado à página 150, na tradução que este autor faz da obra de Métraux:
“[...] o maracá era realmente a representação mística do pajé. Este instrumento
mágico religioso, espécie de chocalho feito de cabaça, assemelhava-se a um
melãozinho oco, mas cheio de milho miudo, de grãos negros ou de pedras. O pau,
que o atravessava, servia de cabo e [...] essa vareta era feita com brejauba (
Astrocaryum Ayri, Mart.)”[73] .
Este
esclarecimento permite-nos deduzir que o maracá constitui-se de uma peça de
formato ovalado, ou arredondado, ligado por uma das extremidades a uma vareta
que servia para movimentá-lo provocando som, ou para colocá-lo em posição
vertical, no caso das cerimônias religiosas, quando era consultado. Na posição
vertical este instrumento deveria assemelhar-se a uma estátua rudimentar, já
que Métraux entende que das “cabaças às verdadeiras estátuas não faltava senão
um passo”[74]. Embora não se conheça que os indígenas
brasileiros chegassem a fabricar estátuas, sabe-se que cada família tinha seu
maracá. O maracá não era um instrumento sagrado por si mesmo, já que a força da
qual carecia para manifestar os espíritos dos antepassados, era-lhe conferida
pelos pajés. Staden[75] menciona que há entre os indios
alguns homens chamados “Paigy”, considerados pelos demais como portadores de
boas novas. Esses homens, anualmente visitavam todas as cabanas,
apresentando-se como que estando em contato com um espírito, vindo de regiões
estranhas e longínquas o qual lhes deu o poder para fazer falar aos maracás e
insuflar-lhes virtudes capazes de satisfazer a qualquer desejo dos índios,
razão pela qual cada índio quer que o poder mágico seja conferido ao seu
chocalho. Para que os feiticeiros pudessem conferir poder aos maracás
organizava-se uma grande festa, com bebedeiras, cânticos e adivinhações, além
de outras cerimônias; na sequencia, os feiticeiros marcavam o dia em que uma
cabana deveria ser evacuada e interditada a mulheres ou crianças. Era ordenado
pelos feiticeiros que todos pintassem seu maracá de vermelho e enfeitassem-no
de penas. Assim preparados os instrumentos eram apresentados aos feiticeiros
para adquirir o poder de falar[76] e transformavam-se em ídolos
capazes de promover mudanças na vida dos indígenas através do cumprimento de
suas vontades, determinando-lhes mesmo as ações, como no caso do incitamento à
guerra. Léry deixa claro o que pensa sobre essas cerimônias :
De maneira que os embusteiros fazem
crer aos pobres tolos que essas especies de frutos ou cabaças, de tal modo
vasadas, paramentadas e ungidas, comem e bebem realmente à noite. E como cada
chefe-de-família acredita nisso, nenhum deles esquece de pôr ao pé de seus maracás
não só farinha, carne e peixes, mas também a bebida de nome cauim. Em geral,
deixam os maracás plantados em terra, de quinze dias a três semanas, sempre
servidos dos mesmos alimentos, após o que lhes atribuem santidade, trazendo-os
sempre na mão e dizendo que, ao fazê-los soar, os espíritos lhes vêm falar”[77].
O
maracá era utilizado também entre os apapocuvas-guaranis, com a mesma função
que entre os tupinambás. Nimuendajú entende que “a santidade e a força mistica
do maracá residem no seu som”. “Assim não é aconselhável falar-lhe
desnecessariamente”[78] Se o maracá era considerado mágico,
havia magia também naquele que era responsável pela sua utilização: os pajés[79] ou pagis. Métraux
explica que os tupinambás possuíam em cada tribo “um numero mais ou menos
considerável de indivíduos dotados de poder mágico”[80], capazes de exercer o papel de
feiticeiros. O exercício desta função não advinha de práticas iniciatórias, mas
sim da inspiração.
Com
esta breve e resumida apresentação da religião dos índios Tupinambá, tentamos
demonstrar que a cosmogonia dos indígenas brasileiros apresenta toda uma gama
de personagens que por suas ações e responsabilidades, assemelham-se a outras
cosmogonias da tradição ocidental, cujas origens
judaico-greco-romanas, estão repletas de exemplos da mesma natureza. Assim sendo,
a presença destes elementos não é estranhável, uma vez que em seu arcabouço
primário, repetem-se aqui, como se davam ali, no interior de uma tradição
cultural, cujas origens se perdem na poeira dos tempos, mas cuja trajetória
permite-nos, até certo ponto, desvendar que houve, certamente, um momento de
totalidade da qual se originam todas as partes do grande quebra-cabeça que é a
história dos homens.
[1] Este texto é
parte de capítulo da Tese de Doutorado defendida na Universidade de Leon, em
Outubro de 2008 e publicada pela Novas Edições Acadêmicas, em
Maio de 2013, com o título O Profetismo no Sincretismo Religioso e
Político Brasileiro – RELIGIÃO E POLÍTICA NO BRASIL - ISBN
978-3-639-89576-6.
[2] FAUSTO,
Carlos. Fragmentos de História e Cultura Tupinambá. Da etnologia
como instrumento crítico de conhecimento etno-histórico. In História dos índios
do Brasil. Manuela Carneiro da CUNHA (org.).- São Paulo – Companhia das Letras:
Secretaria Municipal da Cultura: FAFESP, 1992 , pp.381- 382
[3] As citações e
notas foram reduzidas ao essencial visando as dimensões do texto para esta
publicação. Mantivemos a ortografia original dos textos antigos
mencionados.
[4] GANDAVO, Pero
de Magalhães. Séc. XVI. Tratado da Terra do Brasil.
Historia da Província de Santa Cruz.- Belo Horizonte : Itatiaia; São Paulo :
Ed. da Universidade de São Paulo, 1980: 122. ( Conforme citado em
Nota Bibliográfica à página 11 da obra referendada [...].
[5] PINTO, Estevão
In MÉTRAUX, A. A religião dos Tupinambás e suas relações com as demais
tribus tupi-guaranis. São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1950.
Biblioteca Pedagógica Brasileira, série 5º. vol. 267, pp. 10-11.
[6] VARNHAGEN, Francisco
Adolfo Visconde de Porto Seguro. História Geral do Brasil antes da sua
separação e Independência de Portugal. 4ª ed.integral. São
Paulo. Melhoramentos.1948. T.I ( 5ª ed). Vol.. I. pp.24-25.
[7] GANDAVO, Pero
de Magalhães Séc. XVI. Tratado da Terra do Brasil.
Historia da Província de Santa Cruz.- Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed.
da Universidade de São Paulo, 1980, p.52
[8] GANDAVO,
Op.cit.p. 124.
[9] NÓBREGA, Manoel
da, 1571-157. Cartas do Brasil, 1549-1560.- Belo Horizonte:
Itatiaia; São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 1988, p.99
[10] LERY, Apud
CLASTRES, Hélène. Terra sem Mal; tradução de Renato Janine Ribeiro.-
São Paulo: Brasiliense, 1978, pp.59-60.
[11] PINTO, Estevão.
Autor que traduz a obra do suíço naturalizado cidadão
americano, A . MÉTRAUX, - A religião dos Tupinanmbás e suas
relações com as demais tribus tupi-guaranis. São
Paulo : Companhia Editora Nacional, 1950. Biblioteca Pedagógica Brasileira,
série 5º.vol. 267. Páginas 37-38; elabora
nota explicativa na introdução
( páginas 37-38) onde diz “Talvez um erro tipografico,
pois a 2º viagem de Thevet acompanhou a expedição de Villegagnon, cujos
navios avistaram as montanhas Croistmouron ( terras da Bahia), por volta das
nove horas do dia 31 de outubro de 1555. O regpesso se deu a 31 de janeiro de
1556 ( ou a 14 de fevereiro, de acordo com Nicolau Barré) [...] Quanto a 1º
viagem de Thevet, só um estudo mais demorado de seus mss poderá
deslindar tal questão. Heulhard (Villegagnon, Roi d’Amérique, p. 91, Paris,
1897), referindo-se ao assunto, nota que aquele frade, ao escrever o ms
a que se refere Métraux – Histoire d’André Thevet, Angoumoisin,
cosmographe du Roi, de deux voyages par luy feicts aux Indes Australes et
Occidentales, etc.- já estava em idade avançada, motivo pelo qual sua memoria o
induzia frequentemenete a cair em erros e contradições. E acrescenta que essa
contradição diz respeito até à própria data da sua primeira viagem, embora a
que mencione com mais frequencia seja a de 1550. Há quem pretenda
que Villegagnon, antes de sua expediçao oficial, empreendeu uma viagem de
reconhecimento ao Brasil. Assim o diz o já citado Heulhard (o .c
.ps.93 e 94 ), fato também confirmado
por Baltazar da Silva Lisboa ( Anais do Rio de Janeiro, I, cap. II § 3º, Rio
1834).
[12] MÉTRAUX, A. A religião
dos Tupinambás e suas relações com as demais tribus tupi-guaranis. São
Paulo : Companhia Editora Nacional, 1950. Biblioteca
Pedagógica Brasileira, série 5º. vol. 267, p.32
[13] MÉTRAUX, A. A religião
dos Tupinambás e suas relações com as demais tribus tupi-guaranis. São
Paulo : Companhia Editora Nacional, 1950. Biblioteca
Pedagógica Brasileira, série 5º. vol. 267, p.32
[14] THEVET, André
Op. cit. fols. 919 e 920 apud Métraux op. cit. : 40.(a) nota do autor para
indicar análise que faz ao final do capítulo da obra citada, (
páginas 68 e 69).
[15] MÉTRAUX, A.
A religião dos Tupinambás e suas relações com as demais tribus
tupi-guaranis. São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1950.
Biblioteca Pedagógica Brasileira, série 5º. vol. 267, pp. 68-69.
[16] THEVET, op.
cit. 919 e 920, conforme Métraux, op. cit : 40.
[17] MÉTRAUX, op.cit. p.40
[18] NIMUENDAJÚ,
Curt. Bruchstücke aus Religion und Ueberlieferung der
Sipáia-Indianer. Anthropos, XVI-XVII, St. Gabriel Mödling, 1921-1922,
p 1013 apud MÉTRAUX, Op. cit., p.41.
[19] Ibid. p.41
[20] THEVET, Op.cit.914, Apud MÈTRAUX, Op.cit.,
p.41
[21] MÉTRAUX, Op. cit., Métraux menciona na página 42
( tradução de Estevão Pinto), que : “Supõe Ehrenreich com razão, que
Maire-monan e Monan representam uma só pessoa, se bem que o primeiro
surgisse no mito tupinambá como o descendente de Irin-magé, — o único homem
poupado por Monan do aniquilamento universal. Thevet, aliás, sente certo
embaraço em distinguir Monan de Maire-monan; assim; as qualidades atribuídas
pelo frade ao primeiro são tambem, mais adiante, conferidas ao segundo, embora
haja alguma dificuldade em reconhecer a identidade através das confusas
indicações fornecidas por aquele autor.
[22] MÉTRAUX, Op.
cit. p.42
[23] MÈTRAUX,
Op.cit. p.42
[24] Ibid.
[25] THEVET, Op.cit., Apud MÈTRAUX, Op.cit., p.44
[26] THEVET, Op.cit., Apud MÈTRAUX, Op.cit., p.45
[27] NÓBREGA, Manoel
da, 1571-157. Cartas do Brasil, 1549-1560.- Belo Horizonte:
Itatiaia; São Paulo: Editora Universidade de São Paulo, 1988, p.78
[28] Conforme nota
(75) à página 162 da obra : Cartas Jesuíticas 2. Cartas avulsas.
Azpilcueta Navarro e outros, XV.- Carta da Bahia (1552), na Carta de Vicente
Rodrigues, lê-se : (75) Pbl. Em trad. Ital. Nos “Diversi Avisi Particolari”,
pag. 159-160. Na nota (73), lê-se : Cf. Nobrega, Cartas, p. 92. Sobre “as
pegadas de S. Thomé “. Cf. “A Nova Gazeta da Terra do Brasil” ( texto,
tradução, glossario, comentario), por C. Brandenburger, 1922, onde desde 1515
já vem ( pág. 37) : “Elles ( os Indios do Brasil) têm tambem recordação de
São Thomé. Quizeram mostrar aos Portuguezes as pegadas de São Thomé
no interior do paiz”. ( Vicente Roiz, estava a quatro leguas da Bahia, em
Itapoan). Tumé ou Sumé é segundo Baptista Caetano, que cita Capistrano de Abreu,
o absoluto tubé de ubé e pode interpretar-se “o pai estrangeiro”.
[29] RODRIGUES, Vicente. XV.-
Carta da Bahia. 1552, in Cartas Jesuíticas 2. Cartas avulsas,
1550-1568. Azpilcueta Navarro e outros. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo, :
Editora da Universidade de São Paulo, 1988 : 161.
[30] MÈTRAUX,
Op.cit.p.45.
[31] MÉTRAUX,
Op.cit., p.45: “Maire-atá, [...] pai dos gemeos miticos. Depois de os ter
formado, Maire-atá abandonou a mãe e retirou-se a uma taba proxima de Cabo
Frio, onde passava por um feiticeiro de muita autoridade, o qual, com o auxílio
dos seus demonios familiares, tornou-se habil em predizer o futuro. Logo que
seus dois filhos [...] conseguiram encontrá-lo, o pai
impôs-lhes diversas provas [...]. Se esses elementos do mito, referentes
a Maire-atá, torná-lo-íam uma personalidade independente, se passagens de
outros textos não fizessem dele um sinonimo de Sumé e do herói-civilizador dos
tupinambás”.
[32]ANCHIETA, op. cit..,
p.355, nota do compilador e página 340, conforme na
sequência: Cf. Nobrega ( o . c., II e Iv), Cart. Av. ( XIV e XV),
A Nova Gazeta da Terra do Brasil ( tr. Por C. Brandenburger, 1922),
S. de Vasconcelos ( Cron.. , 1. 2 das Notícias, n. 18 e s.),
Jaboatão ( o . c., 1. Ante primo, IX, n. 30), e frei Gaspar ( Notícias dos anos
em que se descobriu o Brasil, nas Mem., p. 362-6), entre outros. .
[33] CARVALHO, Ronald
de. Pequena Historia da Literatura Brasileira [Premio Academia Brasileira de
Letras] 4ª ed. rev. e aumentada. Rio de Janeiro.F. Briguiet & Cia –
Editores., 1929. 9-14
[34] Conforme já citamos,
tradutor, para o português da obra de Métraux. Além disso Sebastião Pinto
efetua uma ampla análise do entendimento do autor citado.
[35] EHRENREICH, Paul.
“ Die Mythen und Legenden der Südamerikanischen Urvölker und ihre Beziechungen
zu denen Nordamerikas und der alten Welt”. Zeitschrift für Ethnologie, XXXVII,
Berlim, 1905 apud Métraux, op. cit. : 46.
[36] MÉTRAUX,
Op.cit.46-47.
[37] Ibid.p.47 -48
[38] Ibid.p.47
[39] Pode-se ver
nesta lenda alguma semelhança com a história de Jacó e Raquel - Gen 29 (2-30 )
e 30 (2-25).
[40] Confome nota
de Estevão Pinto : 73 : No texto, râle. Trata-se de um frango d’agua,
provavelmente a saracura, fam. Rallidae, a Rallus crassirotris Law; ou a Rollus
sanguinolentus Sw. Álias, é o que diz Thevet, na sua Cosmographie : “il fut
changé en un Ralle, quíls nomment Sarracou”.
[41] Conforme nota
de Estevão Pinto à página 73: Ëm C. d’Abbeville, Historia da Missão dos Padres
Capuchinhos, etc., São Paulo, 1945, a grafia é Koärassuh ( p. 246). Coaraci ou
Goaraci, de guará e cy, a “mãe dos seres viventes”(p. 28).
[42] NIMUENDAJÚ, Curt. - Bruchstücke aus
Religion und Ueberlieferung der Sipáia-Indianer. Anthropos, XVI-XVII, St.
Gabriel Mödling, 1921-1922, p.1015, Apud MÉTRAUX, Op.cit.p.50.
[43] MÉTRAUX, Op.cit.p.75
[44] MÉTRAUX, op. cit. 92. e THEVET, Op.cit. fls
913 –914 . Métraux apresenta o texto de Thevet como apêndice em sua obra.
[45] Talvez esse aspecto do mito servisse para explicar
as planícies e os planaltos, o litoral e a zona de florestas.
[46] MÉTRAUX, Op.Cit. p. 92
[47] MÉTRAUX, Op.cit.p.93
[48] THEVET, op.cit., p.914,
Apud MÉTRAUX, Op.cit.p.93
[49] Estevão Pinto observa em nota à página 102 da
tradução da obra de Métraux, que Thevet escreve
“Pindona” onde Métraux utiliza a palavra “pindo”
[50] MÉTRAUX, Op.cit., p.93
[51] Ibid. p.95
[52] Ibid.p.96
[53] Ibid.p.97
[54] THEVET, Op.cit. Apud
MÉTRAUX, Op.cit., p.100
[55] MÉTRAUX, Op.cit. p.101
[56] Estevão Pinto, tradução da obra de Métraux,
referindo-se ao manuscrito inédito de André Thevet op. cit. : 115
[57] MÉTRAUX, Op.
cit., p.118
[58] THEVET, André
Manuscrito inédito, Apud MÉTRAUX, Op. cit : 117.
[59] Em “Notas ao Capítulo V”
in Métraux, op. cit. páginas 130-131 , Estevão Pinto narra que :
“Jurupari, segundo a tradição, nasceu de uma rapariga virgem , fecundada por
intermédio do sol, que empregou, para isso, o “sumo de cucura do
mato”. A escola culturalista vê no mito de jurupari o reflexo da luta contra o
matriarcado pela subsequente emancipação do homem, com o advento das
associações extra-familiares ( classes de idade, festas de iniciação).
[60] DӃVREUX, Yves.
Viagem ao Norte do B rasil, etc. ed. de 1874, Maranhão, página 282 Apud MÉTRAUX, Op.
cit: 118 e Notas ao capítulo V, de Estevão Pinto, página 130.
[61] ANCHIETA, Op.cit.
[62] MÉTRAUX, Op.cit. p.
137
[63] MÉTRAUX
refere-se a esta questão citando THEVET, op. cit. p. 182.
[64]ANCHIETA, José de Op.
cit. p. 138. Na página 139 tem início as “Notas”, que vão até a
página 153. Na página 152, nota de número (164) lê-se o seguinte:
Escreve Couto de Magalhães ( O Sertanejo, ed. 1913, p. 157) : “O curupira é o
deus que protege as florestas. As tradições representam-o como um pequeno deus
tapuio, com os pés voltados para trás e sem os orifícios para as secreções
indispensáveis á vida, pelo que a gente do Pará diz que ele é mussiço. O
curupira ou currupira, como nós lhe chamamos no Sul, figura em uma infinidade
de lendas, tanto no Norte como no Sul do Brasil.[...]. E. Stradelli,
finalmente faz derivar o vocabulo de curu abreviação de curumi, menino, e pira,
corpo: corpo de menino.
[65] Sobre isto
pode-se verificar em Yves d’Évreux : 293-294
[66] Conforme
mencionado por Yves d’Évreux, : 307
[67] MÉTRAUX, Op.
cit. p.139
[68] MÉTRAUX,
Op.cit. p.140
[69] Na citada obra de Métraux, na nota
( c ) da página 149, Estevão Pinto, responsável pela tradução,
escreve : “Não encontrei tradução para a palavra”.
[70] D’ÉVREUX 1864,
p. 280, Apud MÉTRAUX , 1950, p. 140-141
[71] VASCONCELOS,
1865, p.101.
[72] ANCHIETA, José
de. Op. cit. p.317
[73] MÉTRAUX , Ibid.
[74] MÉTRAUX, Op.cit. p.143
[75] STADEN, Hans. Warhatfige Historia und
beschreibung einer Landtschafft der wilnen grimmigen Menschfresser Leuthen In
der Newewelt America gelegen. Francfort A. M., 1925 , part. II, cap. XXIII.
[76] MÉTRAUX, Op.cit. pp.145-146.
[77] LÉRY, Jean de. Histoire d’un
voyage faict en la terre du Brésil. Paris, 1880. Tomo II, pp.73-74.
[78] NIMUENDAJÚ, Curt. Op.cit.
(1921-1922), p.4312 Apud MÉTRAUX, Op. cit., p. 148
[79] A forma ortográfica para a palavra pajé ou
pagi em lingua portuguesa é pajé.
[80] MÉTRAUX,
Op.cit. p. 153.
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VICENTE DO SALVADOR, frei. História do Brasil: 1550-1627;
revisão Capistrano de Abreu, Rodolfo Garcia e Frei Venâncio Willeke, OFM;
apresentação Aureliano Leite. - 7ª ed.- belo horizonte: Itatiaia; São Paulo:
Ed. da Universidade de São Paulo, 1982.
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