A terra e a água são elementos
distintos da natureza, cada um com sua alteridade, objetivamente. Para permitir
a vida no planeta Terra, é necessário a existência dos dois, seja nos seus
momentos de objetividade, subjetividade ou intersubjetividade.
A terra e a água geram o barro, e
o barro possui em si, no seu interior, a terra e a água com suas
peculiaridades, mas ambos, juntos, assim unidos, formam esta terceira
substância que é o barro com suas novas possibilidades.
E o barro, como a terra e como a
água, toma a forma do recipiente que o contém, ou numa outra finalidade, o
barro toma a forma da proposta do artista que lhe é transmitida através das
mãos. Ideias transmitidas às mãos criam a arte.
Como se dá a manifestação da
proposta do artista na massa do barro? Pelo sentir entre um e outro. Primeiro
pelo olhar-se, mirar-se, ad-mirar-se. Depois pelo apalpar para sentir a massa,
a força, a consistência, os defeitos, a substância enfim do barro e a
sensibilidade das mãos.
Pelo firme mais suave encontro
entre as mãos e o barro o artista sente a forma latente que o barro contém. O
barro, por sua vez, reagindo às propostas transmitidas pelas mãos do artista,
dá-se a conhecer.
A proposta do artista, unida às
possibilidades já latentes no fenômeno barro, darão depois de longo trabalho de
mútua ação, origem à arte final.
Entre a massa informe, mas
latente do barro, e a arte final, há um longo caminhar onde artista e
matéria-prima (fenômeno), buscam-se, lutam, resistem, acariciam-se,
conhecem-se, integram-se e enfim acontece o perfeito entendimento (a relação
EU-TU). O barro, conhecendo o artista, reage deixando fluir a forma que existe
latente em si, e o artista transforma, pela transmissão da sua proposta de
arte, às mãos, a proposta de obra em obra criada.
A concretização da proposta em
obra significa que entre a transmissão da ideia da obra latente no artista e as
possibilidades latentes no barro, houve um acordo tácito:
— O barro permitiu ao artista a
possibilidade de transformá-lo, mas o artista nada teria conseguido se não
tivesse em si a proposta da arte a ser criada e a capacidade para transmitir
aos movimentos de suas mãos os caminhos a serem percorridos para dar forma
arte, no barro, e fundamentalmente o conhecimento intrínseco da matéria barro.
O acordo é a busca entre um e outro.
Há uma sincronia entre as
possibilidades do barro e a capacidade do artista. Se não se estabelecesse a
sincronia não haveria obra de arte; haveria sim, certamente, um repensar entre
artista e barro até a desistência da integração, do dar-se a conhecer e
novamente recolher-se-iam em sua individualidade. O artista sem sê-lo porque a
obra não se concretizou. O barro permanecendo apenas barro porque não foi
transformado pelas mãos do artista em obra-de-arte.
Muitas vezes, na busca de
possibilidades de realização da obra proposta, o artista, sem perceber, deixa
pelo caminho percorrido inúmeras outras obras para os outros importantes, mas
para ele distante da obra-de-arte que persegue. No afã da perfeição buscada,
não lhes dá importância, nem lhes atribui significado.
Mas para o verdadeiro artista o
sentido da arte está na busca da perfeição que acontece quando ele e a
matéria-prima (o barro) se fundem para dar origem à sua arte, e a arte final
nem é o artista, nem é a matéria-prima (o barro), mas contém o resultado das
potências latentes em ambos – matéria-prima e propostas do artista transmitidas
às mãos – sincronicamente.
Artista e matéria-prima, a partir
daí perdem a individualidade, transformando-se na obra acabada, que é cada um e
ao mesmo tempo não é nenhum, mas é algo novo oriundo de ambos. Assim acontece
com as novas obras e novas propostas, pois contínuo e sucessivo se faz o
processo do diálogo, da interação, das inter-relações, na vida, na arte, na
educação
Dirce Bortotti Salvadori (dibs.)
Para
o professor Doutor Aquiles Von Zuben (Fenomenologia)
Peabiru, novembro de 1992.
Comentários