UMA ANALOGIA DO SENTIDO DIALÉTICO DO HUMANO CONFORME A REFLEXÃO DE MARTIN BUBER. A QUESTÃO DA INTERSUBJETIVIDADE

 A terra e a água são elementos distintos da natureza, cada um com sua alteridade, objetivamente. Para permitir a vida no planeta Terra, é necessário a existência dos dois, seja nos seus momentos de objetividade, subjetividade ou intersubjetividade.

 A terra e a água geram o barro, e o barro possui em si, no seu interior, a terra e a água com suas peculiaridades, mas ambos, juntos, assim unidos, formam esta terceira substância que é o barro com suas novas possibilidades.

 E o barro, como a terra e como a água, toma a forma do recipiente que o contém, ou numa outra finalidade, o barro toma a forma da proposta do artista que lhe é transmitida através das mãos. Ideias transmitidas às mãos criam a arte.

 Como se dá a manifestação da proposta do artista na massa do barro? Pelo sentir entre um e outro. Primeiro pelo olhar-se, mirar-se, ad-mirar-se. Depois pelo apalpar para sentir a massa, a força, a consistência, os defeitos, a substância enfim do barro e a sensibilidade das mãos.

 Pelo firme mais suave encontro entre as mãos e o barro o artista sente a forma latente que o barro contém. O barro, por sua vez, reagindo às propostas transmitidas pelas mãos do artista, dá-se a conhecer.

 A proposta do artista, unida às possibilidades já latentes no fenômeno barro, darão depois de longo trabalho de mútua ação, origem à arte final.

 Entre a massa informe, mas latente do barro, e a arte final, há um longo caminhar onde artista e matéria-prima (fenômeno), buscam-se, lutam, resistem, acariciam-se, conhecem-se, integram-se e enfim acontece o perfeito entendimento (a relação EU-TU). O barro, conhecendo o artista, reage deixando fluir a forma que existe latente em si, e o artista transforma, pela transmissão da sua proposta de arte, às mãos, a proposta de obra em obra criada.

 A concretização da proposta em obra significa que entre a transmissão da ideia da obra latente no artista e as possibilidades latentes no barro, houve um acordo tácito:

 — O barro permitiu ao artista a possibilidade de transformá-lo, mas o artista nada teria conseguido se não tivesse em si a proposta da arte a ser criada e a capacidade para transmitir aos movimentos de suas mãos os caminhos a serem percorridos para dar forma arte, no barro, e fundamentalmente o conhecimento intrínseco da matéria barro. O acordo é a busca entre um e outro.

 Há uma sincronia entre as possibilidades do barro e a capacidade do artista. Se não se estabelecesse a sincronia não haveria obra de arte; haveria sim, certamente, um repensar entre artista e barro até a desistência da integração, do dar-se a conhecer e novamente recolher-se-iam em sua individualidade. O artista sem sê-lo porque a obra não se concretizou. O barro permanecendo apenas barro porque não foi transformado pelas mãos do artista em obra-de-arte.

 Muitas vezes, na busca de possibilidades de realização da obra proposta, o artista, sem perceber, deixa pelo caminho percorrido inúmeras outras obras para os outros importantes, mas para ele distante da obra-de-arte que persegue. No afã da perfeição buscada, não lhes dá importância, nem lhes atribui significado.

 Mas para o verdadeiro artista o sentido da arte está na busca da perfeição que acontece quando ele e a matéria-prima (o barro) se fundem para dar origem à sua arte, e a arte final nem é o artista, nem é a matéria-prima (o barro), mas contém o resultado das potências latentes em ambos – matéria-prima e propostas do artista transmitidas às mãos – sincronicamente.

 Artista e matéria-prima, a partir daí perdem a individualidade, transformando-se na obra acabada, que é cada um e ao mesmo tempo não é nenhum, mas é algo novo oriundo de ambos. Assim acontece com as novas obras e novas propostas, pois contínuo e sucessivo se faz o processo do diálogo, da interação, das inter-relações, na vida, na arte, na educação

                                                                                        Dirce Bortotti Salvadori (dibs.)

                                                             Para o professor  Doutor Aquiles Von Zuben (Fenomenologia)

                                                                                   Peabiru, novembro de 1992.

 

 

 

 

 

 

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