COMPARAÇÃO DO ESTADO PLATÔNICO COM O ESTADO ARISTOTÉLICO
Agenor Krul
1 INTRODUÇÃO
Neste texto propomo-nos a efetuar um estudo comparativo entre o Estado platônico e o Estado aristotélico. Inicialmente salientamos fatos da vida de Platão e Aristóteles que com maior ou menor grau influenciaram suas posturas filosóficas nas questões políticas.
Como segundo tópico apresentamos as obras de ambos, com breve comentário. Em seguida apresentamos pontos convergentes e divergentes entre ambos, em primeiro lugar, quanto à política e após quanto à família, propriedade e escravatura.
O estudo das obras políticas platônicas e aristotélicas é, ainda hoje, atrativo e leva a reflexão. Atrativo, pois responde em parte a necessidade atualíssima de unir a Ética e a Política. Faz refletir a necessidade imperiosa de novos caminhos para as sociedades humanas. Reflexões às vezes utópicas, como algumas de Platão, ou esmiuçadas, ponto a ponto, a moda aristotélica, na tentativa de encontrar a panaceia para os males sociais.
2 A VIDA DE PLATÃO E ARISTÓTELES.
Sem dúvida dois grandes gênios da humanidade que influenciaram e influenciam até os dias de hoje.
A Platão, dentre todos, devemos dúvidas e inquietações por isso reflexão, filosofia. Sua obra traz um domínio verbal extraordinário e uma arte invejável.
Nascido de família aristocrata e por isso convocado a participar do governo do Estado, sofre decepções e quem sabe por isso se lança à filosofia e aí fica pela e para a filosofia, refletindo, entre outras, sobre a questão do Estado e idealizando a sua “Polis”.
Platão efetua três experiências políticas mais ou menos desastrosas, em 390, integra a corte de Dionísio I em Siracusa, donde sai e é vendido como escravo. Quem o compra é Anikeis, que o põe em liberdade.Vinte anos depois, novamente vai a Siracusa, agora sob Dionísio II, que reina como filósofo. Mas outra vez Platão se vê obrigado a embarcar à força de volta para a Grécia. Em 361, volta a Siracusa, para tentar demover Dionísio II de sua decisão contra seu amigo Dion. Novo fracasso.
Esta decepção, aliando-se a não por parte de Atenas de suas convicções o leva a refletir a questão do Estado, idealizando sua “Polis”, que não existirá em parte alguma, inaugurando assim o método “utópico” e nos legando os diálogos “A República” e “As Leis”. Parece ser a reflexão filosófica que conduz Platão nestas duas obras e não propriamente seu conhecimento histórico. Em “A República” Platão afirma que uma concepção ideal não deixa de ser perfeitamente realizável. É a utopia realizável ou usando uma linguagem platônica: “mito”.
Seu discípulo Aristóteles, nasceu em 384 e morreu em 322 a.C., em Stágiros, cidade colonial grega.
De sangue jônicos, Aristóteles parece ter a tendência à investigação científica da natureza no seus aspectos físicos (physis), algo que marcou o seu pensamento.
Seu pai era médico e consta ter sido hábil em dissecação – algo herdado por Aristóteles – ao mesmo tempo em que o tornava conhecedor dos sintomas das doenças, do emprego de remédios e isso o influência a ponto de estudar biologia conforme indica nos Livros IV a VI da Política, onde classifica as constituições à maneira como os biólogos classificam seus estudos.
Em Atenas, coração da Hélade, de 367 a 347, dos 17 aos 36 anos Aristóteles passa por um período que se pode chamar de “aprendizagem”, ingressando na. Academia de Platão, nesta época já sexagenário. Na Academia pouco a pouco conquista a posição de assistente. Pesquisa a metafísica do ser, relacionada à pesquisa das “ideias” ou o significado das realidades (arquétipos) atrás e além do mundo dos sentidos.
A pesquisa tinha aspecto teórico – Platão identificava ideias com números – e prático, pois a ética envolvia a pesquisa da religião natural e de maneira muito particular, à investigação política, arte e ciência para o grego.
Aristóteles acompanha o “mestre” nas suas investigações nas questões políticas, pois sabe-se que Platão nos últimos anos de vida desenvolve a sua última obra: “As Leis”, época que ambos estavam juntos. E esta obra influencia Aristóteles em diversas passagens na sua “Política, na “Ética” e na “Retórica”.
Com a morte de Platão, 347 a.C., Aristóteles deixa Atenas, por dois motivos, Felipe da Macedônia destrói sua Stágiros e a Academia passa a um sucessor não aceito por ele. Estabelece-se em Asso, juntamente com Xenócrates, juntando-se a Erasto e Corisco, levando a estes os últimos ensinamentos platônicos e os quatro fazem de Asso uma nova Academia. Aristóteles permanece em Asso três anos e transfere-se para a ilha de Lesbos, mais dois anos e muda-se para Pela, Macedônia e passa a ser preceptor de Alexandre Magno, garoto de 13 anos. Ali permanece seis anos.
Sua influência sobre Alexandre é algo difícil de precisar. No livro “Política” Aristóteles sugere que os bárbaros são naturalmente vassalos dos gregos e numa carta a Alexandre, Aristóteles o aconselha a ser líder dos gregos e senhor dos bárbaros, além da lição homérica de “ser o melhor sempre e destacar-se dentre os demais”1.
Em 335, volta para Atenas, agora sob o domínio macedônico e funda o Liceu.
A Grécia vive sob Antípater, cujas ideias, opiniões e teorias políticas encontram algum fundamento em Aristóteles. Ambos foram amigos na Macedônia e mantendo contato e correspondência nos últimos anos da vida de Aristóteles. Motivo pelo qual os Atenienses o viam e a seu Liceu, como protegido de Antípater, desligado da democracia ateniense e do estadista Licurgo, que embora se declarasse democrata, via as ideias de Esparta com bons olhos.
Licurgo frequentou a Academia entre 338 e 326. Aristóteles aceitou algumas das leis de Licurgo, como o serviço militar compulsório e a não possibilidade de venda de homens livres, capturados na guerra, como escravos.
Em 328, o sobrinho de Aristóteles, Calístenes é executado por ordem de Alexandre disso fez com que o Liceu passe a depreciar Alexandre e suas obras.
Em 324 Alexandre envia Nicanor, genro de Aristóteles, à Grécia, exigindo honras divinas para si. Atenas concorda. Mas Alexandre morto (323) declara-se guerra a Macedônia e por isso contra Antípater. Aristóteles sai de Atenas e se refugia em Cálcis, enquanto em Atenas, por causa de um põem em memória de Herméias de por oferecer sacrifício aos “manes” é acusado.
Em 322, morre e é sepultado em Cálcis. Pelo testamento liberta uma escrava e três escravos, e os filhos de um deles. Não permite e venda dos serviçais domésticos, isto é, cumpre o que preconiza em sua obra “Política” Livro VIII.
3 OBRAS POLÍTICAS DE PLATÃO E ARISTÓTELES
Conforme afirma Werner Jaeger: “As maiores obras do helenismo são monumentos de uma concepção do Estado de grandiosidade sem par, cuja cadeia se desenvolva numa série ininterrupta, desde a idade heroica de Homero até o Estado autoritário de Platão, dominado pelos filósofos e, no qual o indivíduo e a comunidade social tratavam a sua última batalha no terreno da filosofia”2. Concordando tomamos a liberdade de incluir mais a figura de Aristóteles que traz contribuições inovadoras no campo da Política.
Os dois diálogos de Platão: “A República” e “As Leis” são suas principais obras no campo da política, embora “O Político”, “Górgias” contenham elementos que devam ser levados em conta.
No diálogo “A República” Platão faz uma descrição da República ideal. Nela a composição harmoniosa e perfeitamente ordenada dos homens em três categorias – artesões – guerreiros – e governantes-filósofos, é capaz de realização da “dike”.
Neste diálogo Platão expressa a tipologia das formas de governo.
O diálogo “As Leis” cujo conteúdo é análogo ao da “A República”, está dividido em doze livros. Nos três primeiros se faz uma introdução ao que se pretende, isto é, edificar a polis em teoria. Os livros IV a VIII estudam a organização da cidade. Neles se examina a localização, população, a contribuição do Estado, legislação, as classes sociais, a distribuição de terras, as questões de eleição, magistratura, matrimônio, educação, festas e jogos, as relações dos habitantes na vida econômica.
A partir do livro IX, até o último, sofazinho um detalhado código, onde se estuda os crimes contra as pessoas, a religião, sobre os bens dos outros e por fim, trata dos delitos dos magistrados, das relações com o estrangeiro.
Quanto a Aristóteles, conforme se sabe, colecionou e comentou 158 constituições iniciando pela Constituição de Atenas.
A sua obra “A Política”, está subdividida em oito livros. O primeiro conceitua Política, nela se diz que o homem sendo animal “político” está destinado a viver em sociedade. Nos livros II e III, trata da obra de Platão e outros e faz um apanhando dos deveres dos cidadãos e governos. Os Livros IV e V trata da virtude e educação, O Livro Vi, das formas clássicas de governo e discute qual a melhor. Assunto que retomaremos mais adiante. O Livro VII trata da organização da democracia, sua melhor forma se o cuidado do legislador na sua organização. Trata ainda do que deve ser feito para consolidar a oligarquia. O último Livro, o VIII, discorre sobre os Estados republicanos, das revoluções nas democracias, oligarquias e aristocracias e os meios para evitá-las. Trata, ainda, dos perigos que se expõe a monarquia, da tirania e por fim do sistema de Platão sobre as revoluções.
Convém esclarecer quando que lê estudo Aristotélico de política não se separa da pesquisa do sistema ético, pois para ele, “o comportamento ético (individual) é uma subdivisão do que chama” ciência política “3, por isso é necessário ter presente o Livro” Ética a Nicômaco”, quando os estudo da questão política em Aristóteles.
Como afirma Ivan Lins, na introdução do. Livro A Política de Aristóteles, traduzido por Nestor Silvério Chaves, Aristóteles:
[...] foi o primeiro e um dos poucos filósofos de todos os tempos a abarcar o conjunto do saber: o mundo, a sociedade e o homem, e, daí, ser chamado, pelos pensadores árabes, o preceptor da inteligência humana. [...] Aristóteles foi o primeiro a apresentar, em. Um conjunto coordenado, toda a ciência do seu tempo, erigindo como os materiais até então esparsos, o magnífico que abrangia, intelectualmente, a Idade Média, ela ainda hoje pela sua grandiosidade nos enche de espanto. 4
4 ALGUNS PONTOS COMUNS E DIVERGENTES ENTRE PLATÃO E ARISTÓTELES NA POLÍTICA
“Política é a arte de educar rebanhos, dividindo-se os mesmos inicialmente em cornudos e não cornudos, em seguida em bípedes e quadrúpedes [...] política é a arte de conduzir bípedes sem cornos e sem pernas”5, definição humorística de Platão. Mas depois fica claro que política é uma arte, mas “arte de governar os homens com o assentimento dos mesmos”6, pois o governo pela força é “tirania” e pela persuasão é “política”.
Para Platão política é a ciência militar; não é jurisprudência, a justiça está subordinada à política; não é eloquência, embora esta seja importante na persuasão. Política é conhecimento. [...] “Sendo a política o supremo conhecimento, encontra-se naturalmente fora das regras e limites ordinários. EM linguagem moderna, mas sem nosso acento pejorativo, é o exercício de um poder arbitrário e totalitário”7. Criou-se o termo “to sophon”.
Para Aristóteles, Política, como concebe na “Ética a Nicômaco”, é uma ciência “prática”, isto é, forma de conhecimento que decorre da ação. A ciência prática se distingue da “teoria”, conhecimento contemplativo.
Na “Ética a Nicômaco” Aristóteles coloca a política como a principal dentre as ciências práticas, isso porque visa realizar o bem da comunidade, a qual deve ter precedência sobre os indivíduos.
Sendo uma ciência prática, ela não pode se presumir exata, por isso, como na Ética, há maior possibilidade de acerto estando no meio termo. A “phronesis” (prudência prática) é a virtude suprema na política e na ética. Assim fica claro porque em política, Aristóteles estuda as formas de governo traduzidas como constituição.
Neste ponto, do que é política, tanto Platão como Aristóteles, são práticos. Pela leitura de Platão evidencia-se que o mesmo estava interessado, e profundamente, no lado prático da política, fazendo da filosofia um instrumento para chegar a elucidar o modo de vida na “Polis”, embora tenha preferido conjuntura sobre uma “Polis” inexistente para mostrar ser possível uma vida mais perfeita na sociedade.
Aristóteles, com uma formação e até pendor para catalogar ou registrar, trabalhou sobre dezenas de “constituições”, sendo lícito conjuntura que aos ensinamentos do mestre Platão, ele tenha acrescentado seus conhecimentos empíricos.
Mas ambos são práticos.
Quem sabe esta participasse de ambos, os fez examinarem a questão das formas de governo, Platão por seu método de análise e exame estando “fora” do processo, influenciado por sua visão “pessimista da história”8, vendo as constituições do Estado como más, por não, se ajustarem a ideal, se sucederem historicamente. Enquanto Aristóteles examina as Constituições, como sendo uma sucessão continua de formas boas e más.
Nesta questão, as formas de governo-estado, Platão vê como possíveis de existência seis, sendo duas consideradas ideais e quatro, em maior ou menor grau corrompidas ou que se afastam da forma ideal.
A monarquia, que se subdivide em, sofocrática, quando o governo está nas mãos de um colegiado, não comportando hereditariedade pessoal, sendo este colegiado uma comunidade filosófica-guerreira e pode ser também tirânica, quando o governo está nas mãos de uma só pessoa. Platão considera este tipo de maneira favorável, pois pode o mesmo transformar-se em uma “sofocracia”, quando o tirano se torna filósofo ou ouve os conselhos dos filósofos, isto é, a tirania é um poder total, e se não estiver aberta à sabedoria pode ser um poder brutal.
Cumpre esclarecer que em Platão confunde-se “aristocracia”com “monarquia”.
Outra forma de governo é a Oligarquia, que Platão subdivide em: timocracia, forma de governo que alguns encaram como sendo censitária, ou por estimativa de renda e outros consideram como sendo caracterizada pela ambição. Estas duas interpretações partem do próprio pensamento de Platão, a timocracia sucede ao governo do sábio-guerreiro e é uma concepção da aristo-monarquia. Cabe aqui fazer um parênteses e ver a observação feita por Platão no diálogo a República VIII (p.154) “[...] Quando a riqueza e os ricos são honrados numa cidade, a virtude e os homens virtuosos são tidos nela em menor estima”9.
A segunda forma corrompida é a oligarquia propriamente dita. Governo de uns poucos, podendo ser chamada plutocracia, Como afirma Werner Jaeger (Paidéia, p.642): “A razão para Platão pôr a oligarquia imediatamente em seguida à timocracia está, em parte, na sua repugnância pela degenerada democracia ateniense da época, os eu o impedia de ver os méritos históricos da sua cidade natal”10.
A terceira é a aristodemocracia onde existe igualdade de princípios como na democracia, mas não participam da assembleia os elementos cujos bens sejam medíocres.
Por fim, a democracia, que Platão considera desfavoravelmente, por causa da fraqueza do pov. E onde impera a liberdade absoluta, transformando-se em regime sem lei, sem autoridade, sem organização e onde se faz o que se deseja, o que constitui o maior perigo para uma sociedade: “[...] neste Estado -prossegui- ninguém é obrigado a comandar quando se é capaz disso, nem a obedecer quando não se quer nem tampouco a fazer a guerra quando os outros a fazem, nem ficar em paz quando os outros ficam, se não se deseja a paz; de outra parte, se a lei vos proíbe de serdes magistrado ou juiz, podeis, não obstante, exercer estas funções, se vos der na veneta. Não é essa uma condição divina e deliciosa à primeira vista?”11.
As formas de governo para Platão não são imóveis, aliás, movimento é uma ideia que domina a filosofia grega desde Heráclito de Éfeso.
Aristóteles, quanto as possíveis formas de Estado, vê as diferenças existentes ou possíveis, no número de governantes, sua capacidade, competência e o fim com que se exerce o poder. Assim, se um só governa e é o melhor, temos a monarquia. Se vários governam e são os melhores, temos a aristocracia; mas se todos participam da autoridade e são igualmente capazes, aí existe a república.
Mas, existem também as formas corruptas de governo. Assim quando o governo se exerce em proveito dos governantes e há um só governante, temos a tirania, a pior das corrupções; quando são vários os governantes e ricos, temos a oligarquia; quando são vários mas não ricos, e governam na sua multiplicidade, temos a democracia.
Mas as formas de governo não se esgotam aí, pois Aristóteles enumera cinco formas de democracia, quatro de oligarquia, três de aristocracia e já de república em seu livro Política.
A melhor forma, a ideal, é a monarquia, embora seja inexequível; depois a aristocracia, embora se tivesse instituições oligarquias e democracia seria melhor. Aí vemos a questão do “meio-termo”, “ir médio virtus”.
O que podemos observar é que entre Platão e Aristóteles existem alguns pontos comuns, mas a proposta final é diferente quanto a melhor forma de governo, no entanto, o governo ou a forma do Estado para os dois só tem sentido se favorecer o desenvolvimento moral do homem, pois para ambos sendo o homem naturalmente sociável, não pode haver a oposição entre moral e política. Como afirma Ernest Barker: “o Estado deles, devemos nos lembrar, era tanto uma igreja quanto um estado”12.
Cabe aqui lembrar novamente as bases em que se assenta a ética e a política: a “phronesis” para Aristóteles, virtude guia e ao mesmo tempo, centro entre extremos e para Platão a “dike”, virtude absoluta. Para ambos uma outra virtude deve dominar as relações da “Polis” e levá-las, bem como aos seus habitantes, ao aprimoramento de vida, ao aprimoramento moral, baseado na liberdade ética e política e como afirma Morral: “embora Aristóteles nem sempre haja percebido todas as consequências de sua posição, sua opinião estava evidentemente mais próxima da prática corrente da “polis” grega do que a opinião de Platão. Ela não era, no entanto, muito conciliável com o governo monárquico absoluto dos tempos helênicos e da Roma Imperial, e isso pode em parte explicar o fato de que as ideias de Platão estiveram mais em voga nesses períodos. Aristóteles teve que esperar pelo fim da Idade Média, com seu relativo alargamento da participação no processo de governo, para tornar-se autoridade popular “13,
5 PONTOS COMUNS E DIVERGENTES ENTRE PLATÃO E ARISTÓTELES NO QUE DIZ RESPEITO À FAMÍLIA, PROPRIEDADE E ESCRAVATURA.
Como afirmamos acima, o desenvolvimento moral era o parâmetro da vida na “Polis” tanto para Platão como para Aristóteles e este mesmo parâmetro de aprimoramento moral, estabelecido para a existência do Estado, serve para ambos justificar suas posições com relação à família, propriedade e a escravatura.
Platão vê a família como algo descartável, pelo menos aos “guardiões”, que deveram abster-se do casamento e da propriedade, pois as classes dos produtores vivem em famílias e tem propriedade.
Para o sistema “sofocrático” a questão da “eugenia” fica comprometida com a “família” e igualmente, com a camaradagem que deve existir entre os guerreiros. Estes serão mais unidos se o amor pela família não existir. É o que Platão quer com a comunidade de mulheres e de bens. Cumpre ressaltar que não pregava a licenciosidade e leviandade, isto é, não se trata de liberdade sexual, há regulamentação severa.
Na Grécia arcaica há prática da divisão e contribuição de terras entre grupos familiares e era esta prática o meio pelo qual a família obtinha o direito de usar os terrenos. Os bens móveis, pessoais eram individuais, os imóveis pertenciam ao coletivo e era a coletividade que os destinava e os tirava conforme seu arbítrio. É possível que entre os séculos VII e o princípio do século VI a.C. A propriedade privada tenha sido consolidada.
Mas aos “guardiões” Platão nega “direito a propriedade” “[...] eles não podem ter como próprio nem casas, nem terras, nem qualquer outra posse [...]”14. Terão os guerreiros salários para garantir-lhes a subsistência, roupas e armas, viverão em comum e juntos se alimentarão. Assim Platão, pensava ter eliminado dos “guardiões” a ambição e a discórdia.
Enquanto que Aristóteles vê a propriedade privada e a família como instituições pertencentes a todos e isso por “decreto da própria natureza”. Além do mais, para se alcançar uma vida moral sadia, a qual é a finalidade da própria “Polis”, todo cidadão necessita das duas instituições.
Aristóteles, portanto, não aceita as posições platônicas no que diz respeito à propriedade e família, chegando a dizer que é melhor ser um “primo” do que um “filho” no sentido de Platão e como diz Bertrand Russel: “o comunismo de Platão aborrece Aristóteles”. Conduziria ele, à irritação contra os indivíduos preguiçosos, e a toda sorte de disputas comuns entre companheiros de viagem. É melhor que cada qual trate de seus próprios assuntos. A propriedade deverá ser privada, mas as pessoas deveriam ser educadas de tal modo, dentro de um espírito de benevolência, que permitissem que o seu uso fosse amplamente comum. A benevolência e a generosidade são virtudes, e, sem a propriedade privada são impossíveis15.
Ligado a questão da propriedade encontra-se a da escravatura. Tanto Platão como Aristóteles a aceitam.
O fenômeno da escravidão é característico do mundo antigo. Aparece nas sociedades antigo-orientais, embora sob um aspecto secundário economicamente. No mundo grego a escravidão chega a ser fundamento da economia, a ponto de justificar “o modo de produção escrava” ou “sociedade escravista” de Marx.
É evidente que a defesa da escravatura está totalmente descartada pelo pensamento humanitário e pelas Organizações de defesa dos direitos humanos nos dias atuais. Mas Platão e Aristóteles, com certeza sentiram a influência da época e do ambiente em que viveram.
Em Atenas, Sólon tinha proibido a escravidão de concidadãos. Licurgo a de qualquer homem livre, de qualquer estado, quando capturado na guerra. Mas conviviam com a escravidão, embora diferentemente do que ocorreu nas Américas, na Grécia desde os primórdios era crime a prática da violência contra um escravo. Nas Américas o escravo não tinha nem o status de gente.
A escravidão existia como instituição e no tempo de Platão e Aristóteles já tinha passado por diversas modificações, isso desde o período arcaico, por isso em muitos autores gregos a figura de escravo é natural, como em Hesíodo.
Em Atenas além os escravos individuais, a própria “polis” era proprietária, utilizando escravos para funções correspondentes a funcionários públicos, a polícia. Chegando alguns a cuidar da contabilidade e registro da cidade, embora sem direitos políticos. Assim, pôde-se observar que a escravidão fazia parte da vida “social” de Atenas, mas não da vida “política”.
Para Platão a “Polis” devia ter as classes sociais, definidas. Os que deviam prover a subsistência e ter a virtude da temperança: os trabalhadores ou operários; os que deviam proteger o Estado: os guerreiros, os quais deviam ter a virtude da fortaleza e por fim os arcontes ou chefes, aos quais cabia o governo e por isso a virtude da sabedoria.
Fora destas classes, os escravos, que do ponto de vista natural estavam numa situação falsa de inferioridade intelectual e moral, isto dado as exceções existentes, segundo Platão. Além do que, a escravatura era uma necessidade lamentável, que deveria diminuir, até ser suprimida, embora os libertos devessem ser tratados como estrangeiros, sob severas regras.
Platão na “República” acaba afirmando “[...] mas, meu amigo, o termo extremo de abundância de liberdade,... é atingido quando as pessoas de ambos os sexos compradas como escravos, não são menos livres do que os seus compradores”16. Com isso pode-se concluir que para ele existia a possibilidade e necessidade da extinção da escravatura, pois o homem só se realiza moralmente se livre.
Para Aristóteles “há também, por obra da natureza e para a conservação das espécies, um ser que obedece [...]”17. Alguns são aptos a trabalhar com a inteligência e outros aptos a trabalhar com a inteligência e outros aptos a trabalhar só com o corpo, estes por natureza devem se sujeitar ao senhor, isto é, Aristóteles aceita a existência de uma superioridade qualitativa por parte do senhor, o que legitima um controle sobre o escravo e o torna “uma propriedade viva”18.
Mas apesar desta superioridade qualitativa, Aristóteles, conforme afirma Morrall, “[...] acrescenta mesmo um toque de liberalismo filosófico, utilizando a deixa proveniente da Ética sobre a possibilidade de amizade real e comunhão de mentes entre escravo e senhor: o mau exercício de seu domínio por parte do senhor é algo que se torna desvantajoso tanto para o senhor quanto para o escravo. A parte e o todo, como a alma e o corpo, têm um interesse idêntico; e o escravo é parte do senhor, no sentido de ser uma parte viva de seu corpo, mas dele separado. Há assim uma comunidade de interesse, e uma relação de amizade, entre senhor e escravo, quando ambos naturalmente merecem a posição em que se encontram. Mas o reverso é verdadeiro quando as coisas são diferentes, a escravidão repousa tão somente na sanção legal e no poderio superior”19.
Por estas posturas conclui-se que ambos, Platão e Aristóteles, aceitam a escravatura, o primeiro vendo nela algo lamentável, que deva ser suprimido e o segundo como algo natural, embora seja possível uma relação de amizade e de interesse entre senhor e escravo, o que minimiza o problema.
No entanto, se faz necessário reafirmar, que tanto a época como o ambiente influenciaram a ambos, na aceitação desta aberração histórica que foi (ou é) a escravatura.
6 CONCLUSÃO
A leitura e, mais ainda, um trabalho sobre as obras políticas tanto de Platão como Aristóteles servem, nos dias atuais para uma reflexão mais aprofundada e para mostrar a necessidade de um novo caminho e proceder em vários aspectos atuais.
Fica claro que Platão está preocupado com uma “polis” sob o governo de sábios, mas suas reflexões mostram u m interesse profundo pelo lado prático da política, ao mesmo tempo em que a visão da grandeza do Homem impede de haver progresso num ambiente medíocre.
A Academia parece ser escola de formação política para estadistas e uma escola de estudo de matéria legal, fruto disso suas obras a “Política” “e “As Leis”“.
Quanto a Aristóteles que aceita a concepção de “polis” como instituição existente “por natureza” e “por convenção” e que vê o desenvolvimento do homem nesta “polis” “como membro do Estado e não apenas como ser ligado a “fases”, a política também representou longos e profundos estudos e copiosas obras”.
Ambos veem o desenvolvimento humano ligado a busca da perfeição moral, que se dá somente na “polis, medida de todas as coisas”.
Ambos se posicionam de modo severo e até duro em algumas questões sociais, como por exemplo, Platão nega o direito à propriedade aos dirigentes, e, aos operários a cidadania. Aristóteles usa sua teoria para justificar a escravidão. Ambos, no entanto, procuram a perfeição do indivíduo e vice-versa.
Daí podemos concluir que para ambos o Estado é um Estado educacional. As posturas duras, severas ou apenas normativas, de ambos, servem para fazer bons cidadãos, homens retos, com discernimento. A forma ou as formas do Estado, embora existam as preferidas por ambos, dentro destes parâmetros pôde-se compreender tais preferências e ao mesmo tempo, compreender a não fixação em uma só, tanto por parte de Platão como de Aristóteles.
REFERÊNCIAS
Utilizadas
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MORRAL, John B. Aristóteles. Trad. Sérgio Duarte. Brasília: Universidade de Brasília, 1981. Coleção Pensamento Político.
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Para maior aprofundamento
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NOTAS
1. Sir Ernest, Barker, in Aristóteles e a Política, revista Humanidades Jul/Set.83, vol.I, n.4, p.137
2. Werner Jaeger,. Paidéia, p. 92
3. John B. Morral, Aristóteles, p.41
4. Aristóteles. A Política, p.5
5. Marcel Prélot O pensamento Político de Platão .In revista Humanidades, n.5, v.II, p.6
6. Idem, p.7
7. Idem, p.7
8. Norberto Bobbio. A Teoria das Formas de Governo, p.46.
9. Platão. A República. v. I, livro VIII, p.154
10. Werner Jaeger, op. cit., p. 642
11. Platão. A República, v.I, p. 167
12. Sir Ernest Barker, op. cit., p.143.
13. John B. Morral, op.cit., p.43
14. Platão. A República, v.II, p. 29
15. Bertrand Russel. História da Filosofia Ocidental. Livro 1º, p. 291.
16. Platão. A República, v. II, p. 172
17. Aristóteles. A Política, p.12.
18. Idem, p. 16
19. John B. Morrall, op. cit., p.51
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