LEITURA: EXPLICITAÇÕES E IMPLICAÇÕES

  (Palestra proferida em 31 de Outubro de 2015, no auditório do SENAC em Campo Mourão).

                                                                       Leonardo Prota
Instituto de Humanidades

Convívio e isolamento constituem os pilares da construção de plena realização do ser humano; convívio nobre, respeitoso e elevado, proporcionado por um silencioso isolamento.
Esse isolamento é alimentado pelo pensamento e a reflexão. Ambiente propício facilitado pela leitura.
Uma indagação: “o que deve-se entender por leitura”?
Entende-se por leitura a capacidade da pessoa ler um texto, isto é, o que se chama alfabetizar-se.
Lamentavelmente, entre a população adulta sobrevivem analfabetos. De acordo com a UNESCO, na população maior de 15 anos, no mundo, o Brasil possui o oitavo maior número de analfabetos. São cerca de 14 milhões de pessoas.
A par disso, em face dos percalços experimentados por nosso ensino fundamental, apareceu a figura do analfabeto funcional, isto é, aquele que alfabetizou-se, mas não é capaz de desenvolver corretamente o seu raciocínio nem discorrer sobre determinada composição. O analfabeto funcional revela não ter adquirido o hábito e a plena capacidade de leitura, que é, no final de contas, o objetivo do ensino.
Estimativas oficiais indicam que esse contingente equivaleria a 35 milhões entre os adultos. Assim, os dois aglomerados (analfabetos e analfabetos funcionais) ascenderiam a cerca de 50 milhões, que corresponde a 40% do eleitorado (aproximadamente 140 milhões).
Trata-se de um grande desafio, tendo em vista que tudo isso reflete-se no processo de formação de mão de obra e no pleno amadurecimento das instituições democráticas, exigentes de níveis adequados de participação popular.
Por outro lado, não obstante os aspectos negativos indicados, o país conta com expressivo número de leitores. Seriam cerca de 90 milhões. Pesquisa levada a cabo pelo Instituto Pró-livro (IPL), realizadas desde 2.000, permite afirmar que o brasileiro lê em média quatro livros por ano. Confrontados tais resultados ao quadro vigente na Europa e nos Estados Unidos, seriam insatisfatórios. Mas constitui uma base importante para desenvolvimentos futuros.
A par disso, além de dispor de bibliotecas públicas de merecida nomeada em praticamente todos os Estados, tais instituições acham-se bem distribuídas no país. São cerca de seis mil (uma biblioteca para cada 33 mil habitantes).
Costuma-se apontar o preço do livro como elemento inibidor da expansão do mercado editorial. Devo reconhecer que, pessoalmente, não tenho condições de pronunciar-me sobre a consistência de tal avaliação.
Sem embargo, entendo que corresponde a uma ameaça (não apenas à sua expansão, mas à própria sobrevivência do mercado que se trata), a existência de correntes de opinião surgidas em decorrência do aparecimento do que se convencionou denominar de “sociedade da informação”, isto é, do crescente acesso das pessoas aos recursos colocados ao seu dispor pela informática no que respeita à comunicação entre as pessoas e ao próprio modo de agir e comportar-se de grandes contingentes populacionais.
Como fruto do desenvolvimento, em nosso tempo estabeleceu-se uma grande celeuma em torno da sobrevivência do livro. Generalizou-se a crença de que, dadas as facilidades criadas pela informática no que diz respeito à possibilidade de armazenagem da informação, desapareceria a necessidade de termos acesso direto aos livros. As novas gerações estariam sendo educadas para prescindir totalmente do hábito da leitura. Em seu lugar entraria o telefone celular e a filiação às redes, em que o principal treinamento consistiria em acostumar-se a reduzir as formas de comunicação a textos com número limitado de caracteres.
Nos seguintes tópicos discutiremos se efetivamente a espantosa multiplicação dos recursos disponíveis para a difusão do conhecimento implicam as indicadas consequências. A seguir, portanto, trataremos de:

1.      O acesso fácil à informação dispensa o hábito da leitura?
2.      A mudança de perfil dos grandes escritores;
3.      A civilização do espetáculo não substitui a cultura;
4.      A guisa de conclusão.

1        O ACESSO FÁCIL À INFORMAÇÃO DISPENSA O HÁBITO DA LEITURA?

O enfrentamento da questão proposta exige que se estabeleça a imprescindível distinção entre a frequência à escola e os outros segmentos da vida.
Naturalmente, o aprendizado não se restringe aos longos anos em que todas as pessoas são obrigadas a frequentar bancos escolares pela simples razão de que, ao contrário dos outros animais, o ser humano não nasce com instintos que prescindiriam da dependência de for as específicas de treinamento. Andar, alimentar-se ou criar hábitos de higiene pessoal – essenciais à sobrevivência – requerem aprendizado específico. 
O aprendizado que se dá na escola tem características próprias.
O essencial nesse tipo de aprendizado consiste em que deve proporcionar familiaridade com conceitos. Cada disciplina profissional acha-se estruturada com base numa série, sempre mais extensa, de conceitos, isto é, de ideias centrais que a tipificam.
O criador da ciência da administração, Peter Drucker (1909/200500), ensinou-nos que o cerne dessa disciplina residiria no “estudo de casos”. Mais precisamente: compete a quem se proponha estudar a matéria apropriar-se da experiência de determinada empresa. No fundo, essa experiência estará consubstanciada num conjunto de conceitos.
Isso quer dizer que, para cursar essa disciplina, com o enfoque indicado, terá que estudar diretamente num dos livros do autor ou n um texto que se proponha apresentar o conjunto de suas ideias. Sem dispor do hábito de estudo, que se resume numa leitura especial e atenta, certamente não dará conta da tarefa.
Naturalmente, a aproximação a uma obra literária não requer essa forma de estudo. Mas se quisermos que essa aproximação se traduza numa modalidade de aquisição de cultura geral, não pode resumir-se à leitura do que nos caia nas mãos. È preciso dar-se conta de que as obras consagradas como expressão da cultura ocidental não se limitam a distrair. Possibilitam que nos apropriemos da experiência vivida numa determinada época bem como do reconhecimento da diversidade dos tipos humanos.  È certo que, em nosso tempo, o escritor consagrado tem sua audiência limitada aos que o apreciam nessa condição. Desapareceu o “intelectual” que se atribuía a função de “profeta”.
No texto seguinte, “A mudança de perfil dos grandes escritores” Vargas Lhosa discute esse aspecto da questão.

2 A MUDANÇA DE PERFIL DOS GRANDES ESCRITORES

Em nossa reflexão sobre “Leitura: explicitações e implicações”, encerramos o primeiro tópico (em que evidenciamos que o essencial numa boa leitura é adquirir familiaridade com conceitos), afirmando que, em nosso tempo, o escritor consagrado tem audiência limitada: Desapareceu o “intelectual” que se atribuía a função de” profeta”.
Passamos, a seguir, à análise do segundo tópico: “A mudança de perfil dos grandes escritores” em que Vargas Lhosa discute o assunto. Ele esclarece com propriedade que não se trata do desaparecimento dos escritores consagrados, em sua totalidade, mas de uma determinada categoria. Escreve:

Em nossos dias não existe uma única daquelas figuras que, no passado, à maneira de um Victor Hugo, irradiavam um prestígio e uma autoridade que transcendiam o círculo de seus leitores e do especificamente artístico e delas fazia uma consciência pública, um arquétipo cujas ideias, tomadas de posição, modos de vida, gestos e manias serviam de padrões de conduta para um vasto setor.

A seu ver, o clima histórico que favoreceu o seu aparecimento resultou do encaminhamento que teve o racionalismo promovido pelo chamado Século das Luzes, “quando os filósofos deicidas e iconoclastas, depois de matar Deus e os santos, deixaram um vazio que a República teve que encher com heróis laicos”.
Com a expansão do desenvolvimento material, que trouxe como consequência o nivelamento dos cidadãos e o esmaecimento do papel das elites, desaparece esse tipo de intelectual.
Num primeiro momento, Vargas Lhosa considerava que a televisão seria o grande instrumento da democracia. Assim ele escrevia: “Essa dessacralização da pessoa do escritor não me parece uma desgraça; pelo contrário, põe as coisas no seu lugar, pois a verdade é que não implica que quem assim está dotado para a criação literária goze de clarividência generalizada”.
Mais tarde, em 1994, a posição de Vargas Lhosa era a seguinte: Em vez de se deprimir ou se considerar um ser obsoleto, expulso da modernidade, o escritor de nosso tempo deve, isso sim, sentir-se estimulado pelo formidável desafio que significa criar uma literatura que seja digna daquela, capaz de chegar a esse imenso público potencial que Oe espera, agora que, graças à democracia e ao mercado, existem tantos seres humanos que sabem ler e podem comprar livros, coisa que jamais aconteceu no passado, quando a literatura era, com efeito, uma religião, e o escritor um pequeno deus ao qual rendiam culto e adoravam ‘as imensas minorias’. Que a cortina fechou-se para os escritores pontífices e narcisos, não há dúvida. Mas o espetáculo pode ainda continuar se seus sucessores conseguirem que seja menos pretensioso e muito divertido.
Penso que seja oportuno lembrar que Mario Vargas Lhosa, nascido no Peru em 1936, e hoje divide seu tempo entre Londres, Paris, Madri e Lima, é um dos mais importantes escritores da atualidade, autor de uma extensa obra literária, vencedor de prestigiosos prêmios, entre eles o prêmio Nobel da Literatura.
No livro que ele publicou em 2013, com o título de “A civilização do espetáculo – uma radiografia do nosso tempo e de nossa cultura”, Vargas Lhosa considera que aquilo que os meios de comunicação colocaram em lugar da cultura que erigimos no passado reduz-se progressivamente a alimentar as paixões baixas dos comuns dos mortais.

Vejamos, ainda que resumidamente, em que consiste essa reação.

3        A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO NÃO SUBSTITUI A CULTURA

No livro indicado, Vargas Lhosa demonstra que existe, hoje, toda uma linhagem de obras majoritariamente de origem francesa, que preconiza a substituição dos valores tradicionais por algo que chega a reconhecer-se como contracultura. Entre vários autores, menciona Frederic Martel, “Mainstream” (Paris, Flammarion, 2010).
corrente principal (mainstream) seria a prevalência do entretenimento. Indica Vargas Lhosa: Martel não se preocupa com livros “nem de pintura ou escultura, nem de musica ou dança clássica, nem de filosofia e humanidades em geral, mas exclusivamente de filmes, programas de televisão, videogames, mangás, shows de rock, vídeos e tablets, bem como das” indústrias criativas” que produzem, patrocinam e promovem, ou seja, das diversões do grande público que foram substituindo a cultura do passado e acabarão por liquidá-la”.
Destaca que o autor vê com simpatia essa transformação. Parece-lhe que “arrebatou a vida cultural à pequena minoria que antes a monopolizava e a democratizou, pondo-a ao alcance de todos”. E ainda que os conteúdos dessa nova espécie de cultura estariam em consonância com os avanços científicos e tecnológicos em geral.
No entendimento de Vargas Lhosa essa realidade não tem merecido a necessária atenção de parte da sociologia e da filosofia. O certo é que a imensa maioria do gênero humano “não pratica, não consome nem produz outra forma de cultura que não seja aquela que, antes era considerada pelos setores cultos de maneira depreciativa, mero passatempo popular, sem parentesco com atividades intelectuais, artísticas e literárias que constituíam a cultura”. Na visão de Martel essa já teria morrido, sobrevivendo apenas em pequenos nichos sociais, sem influir de modo algum o que se transformaria no fluxo principal. Afirma Vargas Lhosa:

A diferença essencial entre a cultura do passado e o entretenimento de hoje é que os produtos daquela pretendia transcender o tempo presente, durar, continuar vivos mas gerações futuras, ao passo que os produtos deste são fabricados para serem consumidos no momento e desparecer, tal como biscoitos ou pipoca. Tolstoi, Thomas Mann e ainda Joyce e Faulkner escreveram livros que pretendiam derrotar a morte e sobreviver a seus autores, continuar atraindo e fascinando os leitores nos tempos futuros. As telenovelas brasileiras e os filmes de Hollywood, ainda com os shows de Shakira, não pretendem durar mais que o tempo da apresentação, desaparecendo pra dar espaço a outros produtos geralmente bem sucedidos e efêmeros. Cultura é diversão e o que não é divertido não é cultura.

O ponto fraco deste movimento, diríamos nós, consiste em que a vida não se reduz a entreter-se. A sociedade em que vivemos não é a sociedade do entretenimento. O mundo do trabalho é extremamente competitivo. Não basta ter domínio do funcionamento do tablet ou do celular para assegurar-se um emprego, ainda que vinculado ou dependente da informática. A autêntica formação profissional não pode prescindir do hábito da leitura e do estudo. O conhecimento não irá sustentar-se graças à simples habilidade em acessar informações.
A par disso, há outras circunstâncias que atuariam no sentido de contrapor-se ao mencionado movimento.
A primeira delas diz respeito à perspectiva de desenvolvimento do ensino de nível superior, na previsão do conhecido estudioso norte-americano Nathan Hardes, que afirma que o grande desenvolvimento a verificar-se diz respeito ao ensino à distância. As grandes universidades norte-americanas e europeias passarão a ter milhões de alunos, em consequência do que desaparecerão em grande parte os Campi.
Na mencionada modalidade de ensino, o primeiro passo há de consistir em instruir o aluno quanto às formas de estudar. O ensino à distância repousa em dois instrumentos simultâneos e imprescindíveis: um texto de excelente qualidade e um sistema tutorial eficaz. De parte do aluno, se nãoa aprende a estudar não saberá tirar proveito do material de qualidade a que terá acesso, notadamente, de um lado, em adquirir a habilidade de apropriar-se do essencial e, ao mesmo tempo, tirar partido da possibilidade do acesso ao autor.
A segunda consiste em que na INTERNET não estão acessíveis apenas os textos simplistas e de informação mínima e superficial. Pode-se acessar material de outra índole, facultados por sites e instituições renomadas.
Na própria televisão, em especial na TV a cabo, há filmes culturais de excelente qualidade. Para citar apenas os ingleses, a BBC e a Open University produzem material de valor excepcional.
Quanto à produção cultural, com exceção talvez da arte plástica contemporânea – que parece ter sucumbido de forma irreversível à mediocridade -, os grandes museus mantêm acesso ao notável patrimônio histórico acumulado pela arte do Ocidente. No que respeita ao cinema, Hollywood enveredou pelo caminho da produção em massa, embora abrigue atores de excepcional qualidade, acha-se ao serviço exclusivo do entretenimento vulgar. Contudo, o cinema europeu tem dado provas da capacidade de resistência.
Na preservação e desenvolvimento do nosso patrimônio musical, sobrevivem tanto nos Estados Unidos como na Europa, instituições que continuam impávidas na sua trajetória, a exemplo do Carnegie Hall.
Registre-se, igualmente, que, nos Estados Unidos, o Endowment for Humanities, mantida pelo governo federal, realiza um trabalho notável no âmbito da cultura geral.

4        À GUISA DE CONCLUSÃO

Iniciamos nossa reflexão sobre: “Leitura: explicitações e implicações” com a identificação dos conceitos: Convívio, isolamento, que constituem os pilares da construção da plena realização do ser humano. Um convívio nobre, respeitoso e elevado, proporcionado por um silencioso isolamento. Esse isolamento é alimentado pelo pensamento e a reflexão. Todo esse contexto resulta num ambiente propício que é facilitado pela leitura.
Após termos apresentado considerações que explicitam o significado de leitura e, por outro lado, as que confundem esse real significado, passamos à tentativa de esboçarmos uma conclusão, formulando uma pergunta: “Qual é, especificamente, o objetivo da leitura?”.
Aparece claramente à nossa mente que o objetivo da leitura é a formação cultural do ser humano. A leitura torna o leitor sempre mais culto.
Vejamos, portanto, o que deve-se entender por cultura.
Há o conceito antropológico, visto como a soma de obras, ideias, costumes, atividades... de um povo; e o conceito originário. Os filósofos da antiga Grécia foram os criadores da ideia de cultura concebida como um ideal original de formação humana.  Somos os herdeiros do mundo Greco-romano e do Cristianismo e, por conseguinte, de uma forma de situar o ser humano no mundo e valorizá-lo. Nessa mundividência, a que estamos profundamente vinculados por uma riquíssima herança, a cultura não é concebida como uma amálmaga de traços que se acumulam de qualquer modo, mas como uma ideia inseparável de formação pessoal, para a qual os valores não se equivalem, mas obedecem a princípios e se articulam em função de regras que decorrem de um ideal humano que se poderia exprimir na famosa frase de Sêneca:” O se humano é coisa sagrada para o ser humano” (Homo, sacra res homini).
Cultura é formação, plasmação, configuração do indivíduo como humano, como pessoa.
De fato, não há conflito entre as duas acepções do conceito de cultura: em sentido histórico (como ideia original de formação humana); e em seu sentido antropológico, (como identificação das manifestações e formas de vida que caracterizam um povo); quando for evidenciado que toda cultura envolve uma ordenação de vida, o estabelecimento de parâmetros, a elaboração de hierarquia de valores, sem a qual se desarticularia a vida social, destruída, rapidamente, pela anomia interior de seus membros. Contudo, hoje, no Brasil (como já esclarecemos anteriormente) evidencia-se um abuso da palavra cultura como conceito antropológico descritivo com a agravante de englobar uma panaceia de situações que levam a considerar tudo como cultura; isso vai minando a própria estrutura da sociedade rumo à sua desarticulação.
Em síntese, consideramos que o objetivo específico da leitura é a formação do ser humano como “pessoa” incluindo-o no contexto participativo da vida em sociedade.
A “Leitura” proporciona formação cultural e, ao mesmo tempo, facilita a comunicação dessa cultura.


Evidenciamos uma vez mais: trata-se de Convívio e Isolamento: os pilares da construção de plena realização do ser humano: Convívio, que proporciona e facilita uma sempre maior participação na sociedade, pelo cabedal de conhecimentos acumulados no isolamento, alimentado e enriquecido pela leitura silenciosa, pelo pensamento e pela reflexão.

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